Haviam as moscas e, claro, seus zumbidos. Havia também o calor e, claro, um sol de rachar. Havia também a preguiça e, claro, a casa desarumada. Havia o suor e, claro, o fedor. Não havia mais nada apesar de tudo. E, apesar de tudo, não havia mais nada. Tanto faz. Os pensamentos apenas rastejavam. O tempo virava pó. Bom, isso não é lá uma novidade, na verdade nem mesmo a escolha que eu tinha feito era uma novidade. E, na verdade, nem tinha escolhido nada, ou, quem é que pode saber, havia apenas escolhido pelo nada. O fato é que não sei porque havia ali um leve cheiro de novo. Ouvi o chuveiro. Taí uma novidade. Escutei uma voz feminina cantando alegremente enquanto eu me esforçava para lembrar quem é que estava usando o meu chuveiro. Não me veio nada na mente, o que não era novidade. O jeito era esperar a surpresa. A porta do quarto se abriu e me aproxima uma jovem com cabelos encaracolados, ruivos, com seus grandes olhos negros e curiosos e seu belo sorriso aperolado. Magra e branca como a porcelana da minha privada. De fato, foi uma visão agradável. Desagradável foi eu não ter me lembrado dela. Ela tira a toalha que enrolava seu corpo e, muito naturalmente, começa a falar comigo enquanto se vestia:
-Sabe, fazia um tempo que não acordava de manhã... Na verdade, nunca acordei tão bem quanto hoje... A festa ontem foi muito pra mim, nossa, bebi horrores! Eu realmente tenho que parar com isso... Falar nisso, muito obrigada por ter cuidado de mim. Ahh, estamos quites, eu cuidei de você também, direitinho.... ahahahaha. Você parece um menininho Felipe... Não, claro, não fisicamente falando, mas, sei lá... você chorou ontem, não se lembra? Bom, na verdade, nós choramos... Daí depois, bom, daí depois... ahhh você sabe... Obrigada... Felipe? Felipe, tudo bem?
-É... sim, sim, to bem sim...
-Desculpe, to falando muito e de manhã a gente precisa é de paz... - Veio e se deitou junto a mim.
-É... paz...
-Você sempre fala pouco assim pelas manhãs?
-É... sempre.
-Você é engraçado... Vou fazer o café, posso?
-Vá em frente, vou tomar um banho.
A água descia fria. Aquilo não poderia ser real. Me esforcei ao máximo para me lembrar da noite anterior. A julgar pela minha ereção e pelo cheiro de xampu feminino que estava grudado em meu peito e que impregnava meu nariz poderia jurar que eu transei com aquela moça e que ela passou a noite deitada sobre mim. Bom, foi só uma suposição, o que mais me apavorava era o fato de eu não saber o nome daquela moça por quem eu jurava estar na eminencia de me apaixonar. Bom, até ai tudo certo, é assim na maioria das vezes quando nos apaixonamos: Não sabemos nada a respeito da pessoa. Deve ser por isso que é tão bom. Tomamos o café, ela continuava a falar, falar, falar e falar. Eu continuava a não entendê-la e a não entender o que se passava em mim. Admirava-a aos poucos. Então ela beijou a minha testa e foi embora. Acabei meu café sozinho. Havia ali a dúvida e, claro, a angústia. Havia também o alivio e, claro, um pouco de paz. Havia também, de certa maneira, a certeza de que vivi uma coisa boa, mesmo não me lembrando de nada, e, claro, a sensação de que deveria fazer algo para que aquilo perdurasse. Corri atrás da ruiva antes de ela chegar na rua. Já estava em seu carro, corri e bati no vidro. Ela riu pois eu estava de cuecas. Enfim, pedi seu telefone, ela me passou o número e eu liguei no outro dia.
Felipe Ribeiro
sábado, 14 de março de 2009
sexta-feira, 13 de março de 2009
Do desperdício nosso de cada dia.
Ela fazia de um tudo pra não ser enxergada. Ele por sua vez, não ficava atrás. Ambos ali ficavam calados, parados, esperando a chuva do lado de fora da janela ou algum barulho para puxar, quem sabe, algum assunto. Assim descobriram que só havia o tédio, como se soubessem que o mundo não mais mudasse naquele momento. E, nessas circunstancias, ambos assumiam o compromisso de não esperarem mais nada um do outro, nem mesmo de si mesmos. Bebiam prostrados, de frente um para o outro. Ela com seu cigarro, ele com seu copo de plástico sujo de vinho barato. Ai veio o olhar, logo em seguida as sombrancelhas dele ergueram-se como se disessem "então, é isso?". Ela deu um leve sorriso e uma leve balançada de cabeça como se afirmando "Sim, é isso." Ele então deu de ombros, concordando com aquilo tudo. Ela virou o olhar para o lado, para a parede, para o nada, esperando ele olhar para outra coisa. E assim o fez. E assim acabou-se a noite, a oportunidade, a mudança, a possivel catástofre ou, quem sabe, o milagre que eles tanto procuravam um para o outro.
Felipe Ribeiro
Felipe Ribeiro
quarta-feira, 11 de março de 2009
Casca Oca.
Eu sou uma casca oca
Movida pelo faro
E pela intensa vontade
De agarrar a própria alma.
Eu sou uma casca oca
Que só consegue agarrar a sombra
De seu sonho mais real.
E a alma fica sempre a frente
De mãos dadas a minha paz
E eu nunca as alcanço.
Eu sou uma casca oca.
Movida pelo suspiro.
Pela simples curiosidade
De querer sentir o gosto
Da minha força.
E ela estará lá, sempre a frente
De mãos dadas com a minha paz e a minha alma.
Sempre me chamando
Sempre correndo
Mas sempre deixando os rastros
Que chamo de esperança.
Felipe Ribeiro
Movida pelo faro
E pela intensa vontade
De agarrar a própria alma.
Eu sou uma casca oca
Que só consegue agarrar a sombra
De seu sonho mais real.
E a alma fica sempre a frente
De mãos dadas a minha paz
E eu nunca as alcanço.
Eu sou uma casca oca.
Movida pelo suspiro.
Pela simples curiosidade
De querer sentir o gosto
Da minha força.
E ela estará lá, sempre a frente
De mãos dadas com a minha paz e a minha alma.
Sempre me chamando
Sempre correndo
Mas sempre deixando os rastros
Que chamo de esperança.
Felipe Ribeiro
sexta-feira, 6 de março de 2009
A sentença.
Andei brincando com a minha dignidade.
Tiro ao alvo.
Acertei-a bem na testa.
Do sangue que jorrou só restou a casca.
Seca, preta, fétida.
E da crosta veio o nada.
Cheio de cor, som, sabor...
Cheio de amor, surpresa, encanto
E tédio.
Tédio em cima de uma casaca vermelha.
Com pequenas bolinhas verdes.
E de longe se ouvia uma gargalhada,
Feminina, hedionda e satânica.
E de perto se via as luzes em redor
Se movendo pra lá, pra cá...
Me deixando cada vez mais tonto.
Não havia nada ao que se agarrar,
Estava consumado, todas as luzes,
Todos os sons, todos os cheiros.
Da crosta surgiu o nada
Carregado de cores, de amores
De feições rídiculas, vazias.
E de longe, só de longe.
Se via o que escapava.
E era quase que tudo
Dentro de um vento, de um ventre.
Estava mudo.
Nem mais gritar poderia.
E logo a garganta acumulou o susurro.
E o fundo veio como uma pedrada.
Da crosta fria e dura, quebradiça.
Surgiu o nada.
E do nada, veio a mim o fundo.
E o fundo veio como uma pedrada.
Bem dada.
No mundo.
Felipe Ribeiro
Tiro ao alvo.
Acertei-a bem na testa.
Do sangue que jorrou só restou a casca.
Seca, preta, fétida.
E da crosta veio o nada.
Cheio de cor, som, sabor...
Cheio de amor, surpresa, encanto
E tédio.
Tédio em cima de uma casaca vermelha.
Com pequenas bolinhas verdes.
E de longe se ouvia uma gargalhada,
Feminina, hedionda e satânica.
E de perto se via as luzes em redor
Se movendo pra lá, pra cá...
Me deixando cada vez mais tonto.
Não havia nada ao que se agarrar,
Estava consumado, todas as luzes,
Todos os sons, todos os cheiros.
Da crosta surgiu o nada
Carregado de cores, de amores
De feições rídiculas, vazias.
E de longe, só de longe.
Se via o que escapava.
E era quase que tudo
Dentro de um vento, de um ventre.
Estava mudo.
Nem mais gritar poderia.
E logo a garganta acumulou o susurro.
E o fundo veio como uma pedrada.
Da crosta fria e dura, quebradiça.
Surgiu o nada.
E do nada, veio a mim o fundo.
E o fundo veio como uma pedrada.
Bem dada.
No mundo.
Felipe Ribeiro
domingo, 1 de março de 2009
Conversas para boi dormir (parte 3)
-Veja, a vida não é assim. - Me disse o garoto.
-Meu! Vamos lá, me diga o que é então!-Perguntei, deveras entusiasmado.
-Você tem que viever o momento, sabe?
-Sei!
-Você tem que deixar as coisas virem, ter fé no seu taco!
-Sei!
-E é assim que as coisas funcionam.
-É?
-Sim... se não for assim, cara, não funciona!
Agradeci pelas dicas. Tenho tentado colocar em prática o contrário para ver se de fato funciona. E vejam só, funciona perfeitamente. O que me leva a constatação de que, de fato, essa fórmula deva funcionar bem.
Felipe Ribeiro.
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Passos na noite.
Queime meus sonhos
Com seus lábios impuros
E as palavras mais frias
Que como a um susurro
Destroem a minha vida
E corroem o meu mundo...
O meu mundo...
Fria e escura
São as noites vazias
Das lembraças ingenuas
Do calor do futuro
Dos meus absurdos
louváveis absurdos
Esperança não tenho mais
O que me sobra a essa hora
Das vaidades mortas
É o nunca mais
É o nunca mais
Pego a estrada noturna
Ando olhando pra lua
Esquecendo a cada passo
Meu cansaço...
Meu cansaço...
Felipe Ribeiro
Com seus lábios impuros
E as palavras mais frias
Que como a um susurro
Destroem a minha vida
E corroem o meu mundo...
O meu mundo...
Fria e escura
São as noites vazias
Das lembraças ingenuas
Do calor do futuro
Dos meus absurdos
louváveis absurdos
Esperança não tenho mais
O que me sobra a essa hora
Das vaidades mortas
É o nunca mais
É o nunca mais
Pego a estrada noturna
Ando olhando pra lua
Esquecendo a cada passo
Meu cansaço...
Meu cansaço...
Felipe Ribeiro
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Pelas noites.
Lá estava ela...
Fria, parada, me esperando...
Ou quem sabe qualquer outro
Que fosse ao seu encontro...
Mas só estavámos nós...
Sós, um aguardando o outro...
Bastava me aproximar e botar a coisa toda pra funcionar...
Bastava eu agir...
Bastava eu...
Bastava...
Basta!
Não poderia mais aguentar esse estado de coisas.
Aproximei-me munido de coragem,
De vontade,
De esquecimento.
Peguei-a, estava fria...
Pus ela para funcionar...
Não funcionou como eu queria.
Mas me obrigou a olhar para algumas coisas.
Coisas fora de foco, fora das vistas...
Fora de qualquer intenção que eu poderia sugerir.
Ela funcionou, para mim...
Mas ao contrário.
Quanto a ela...
Retornou ao seu esconderijo...
Fria, como sempre fora.
Felipe Ribeiro
Fria, parada, me esperando...
Ou quem sabe qualquer outro
Que fosse ao seu encontro...
Mas só estavámos nós...
Sós, um aguardando o outro...
Bastava me aproximar e botar a coisa toda pra funcionar...
Bastava eu agir...
Bastava eu...
Bastava...
Basta!
Não poderia mais aguentar esse estado de coisas.
Aproximei-me munido de coragem,
De vontade,
De esquecimento.
Peguei-a, estava fria...
Pus ela para funcionar...
Não funcionou como eu queria.
Mas me obrigou a olhar para algumas coisas.
Coisas fora de foco, fora das vistas...
Fora de qualquer intenção que eu poderia sugerir.
Ela funcionou, para mim...
Mas ao contrário.
Quanto a ela...
Retornou ao seu esconderijo...
Fria, como sempre fora.
Felipe Ribeiro
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Conversas pra boi dormir, parte 2.
Ahhh... quarta feira, seis e meia da tarde... Onibus mais do que lotado. Enfim, não se podia fazer muita coisa a não ser se equilibrar pra não enfiar a cara no suvaco da gorda alta e loira e de meia idade à sua frente... Fora isso aquela sensação de estar sendo espoliado, de terem enfiado uma faca no meio dos seus bagos e arrancado toda e qualquer manifestação de descencia própria que estaria em algum canto da consciencia. Eis que sai a gorda alta e loira e de meia idade e dá-se lugar a dois adolescentes, ambos usavam bonés coloridos, um litro de gel no cabelo e muitas espinhas na cara, e claro, só pra constar, conversavam muito, muito, muito alto... Aquela sensação de nausea, aquele pensamento cortante e constante: Deus, onde estava a minha coragem de ir a pé? Não pude deixar de ouvir a maldita conversa... Na verdade nem podia deixar de ouvir, não porque era uma conversa interessante mas sim porque simplesmente eu estava entre os dois... Cristo, onde é que a gente consegue forças para não perder a cabeça? Enfim... Lá vai a conversa. (sim, parece contraditório eu ter decorado toda a conversa, mas, como voces verão, ela é muito simples e por deveras repetitiva...)
-Cara! Puta que pareo, PUTA QUE PAREO!
-Fala maluco!
-Cara.. tipo assim, puta merda meo!
-Só... Também acho! Depois do que o professor falou pra Jaqueline... Meo, eu teria estourado a cara dele!
-Não cara, tipo... Foi foda!
-É... Cara... a Luana é uma gata heim?
-Pode crer... Só de ter beijado ela eu notei que ela é de boa...
-Qualé cara? Voce ficou com a Luana?
-Ihhhh, tá por fora... Pego memo!
-Ahhh cara, vai tomar no cu!
-Sério cara, to te falando...
-Nó... que paia heim? E o Diego, ficou sabendo?
-Que isso cara, lógico que não, deerrrrr!Ce acha que eu vou dar bobera assim? E outra cara, a Luana é de boa demais...
(nota mental, de minha parte, essa Luana era uma puta... voltando com a conversa.)
-Só...
-Cara, essa bosta de aparelho é uma merda! (nota mental, de minha parte outra vez... Redundancia, voltemos com isso.)
-Só...
-Fode com os beijos! De vez em quando eu arranco umas lascas do beiço das muié...
-Só...
(nota mental... Socorro!)
-Cara... Que paia... porque voce não pode ir lá em casa?
-Foda cara... Minha mãe grilou véi! (aqui tenho que fazer outro parenteses... em toda a conversa essa foi a frase em que mais se falou em tom baixo...)
-Foda...
-É.. foda demais...
-É...
-É... Falou fi, depois a gente se ve...
-Ou, falou...
Nesse momento uma cadeira se esvaziou na minha frente. O adolescente que ficou no onibus sentou-se nela de uma vez, quase sentando no colo da senhora que estava sentada antes. Eu estava carregando uma sacola plástica de um supermecado... Essa sacola pesava 4 quilos... Cheio de areia pra gato... Não fiz nada. Dei o sinal e desci. Mais pobre, mais sujo e mais infeliz.
Felipe Ribeiro
-Cara! Puta que pareo, PUTA QUE PAREO!
-Fala maluco!
-Cara.. tipo assim, puta merda meo!
-Só... Também acho! Depois do que o professor falou pra Jaqueline... Meo, eu teria estourado a cara dele!
-Não cara, tipo... Foi foda!
-É... Cara... a Luana é uma gata heim?
-Pode crer... Só de ter beijado ela eu notei que ela é de boa...
-Qualé cara? Voce ficou com a Luana?
-Ihhhh, tá por fora... Pego memo!
-Ahhh cara, vai tomar no cu!
-Sério cara, to te falando...
-Nó... que paia heim? E o Diego, ficou sabendo?
-Que isso cara, lógico que não, deerrrrr!Ce acha que eu vou dar bobera assim? E outra cara, a Luana é de boa demais...
(nota mental, de minha parte, essa Luana era uma puta... voltando com a conversa.)
-Só...
-Cara, essa bosta de aparelho é uma merda! (nota mental, de minha parte outra vez... Redundancia, voltemos com isso.)
-Só...
-Fode com os beijos! De vez em quando eu arranco umas lascas do beiço das muié...
-Só...
(nota mental... Socorro!)
-Cara... Que paia... porque voce não pode ir lá em casa?
-Foda cara... Minha mãe grilou véi! (aqui tenho que fazer outro parenteses... em toda a conversa essa foi a frase em que mais se falou em tom baixo...)
-Foda...
-É.. foda demais...
-É...
-É... Falou fi, depois a gente se ve...
-Ou, falou...
Nesse momento uma cadeira se esvaziou na minha frente. O adolescente que ficou no onibus sentou-se nela de uma vez, quase sentando no colo da senhora que estava sentada antes. Eu estava carregando uma sacola plástica de um supermecado... Essa sacola pesava 4 quilos... Cheio de areia pra gato... Não fiz nada. Dei o sinal e desci. Mais pobre, mais sujo e mais infeliz.
Felipe Ribeiro
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Baboseiras de uma tarde de domingo.
Enfim, era um dia como outro qualquer... Levantei cedo, lá pelas três horas da tarde, peguei algumas moedas para ir até o mercado comprar uma aspirina pra minha bruta ressaca de dois dias... Claro, também queria colocar alguma coisa na barriga, o que fez com que a busca por mais moedas durasse mais uma hora e meia. Enfim, sai de casa para ir ao mercado. A rua estava vazia, a não ser por um homem que ia na mesma direção que eu, um homem negro, forte, sem camisa, só de bermudas, chinelos e uma lata de cerveja numa das mãos. Até ai tudo bem, o que me chamou a atenção foi um muleque de seus 12 anos andando numa velocidade absurda em sua bicicleta xingando todo mundo por quem passava fino. Passou por esse homem e o chamou de angolano, veio pra cima de mim com a bicicleta na fina, não sai do lugar, me chamou de viado. Bom, neste sentido alguma coisa me subiu a cabeça, talvez raiva ou algo do genero, mas algum comando me fez dar um chute na roda traseira da bicicleta do garoto. Nem vi o que aconteceu, não virei pra olhar, mas ouvi o barulho do ferro da bicicleta estourando no asfalto... depois um grito, depois um choro e depois mais alguns xingamentos, dessa vez dos tipos "filha da puta, corno, desgraçado". Onde foi que ele aprendeu tal vocabulário, na escola? Enfim, cheguei a conclusão de que não era comigo e continuei meu caminho. Ao voltar pra casa o garoto ainda estava na rua chorando. Pude ver o estrago, bom, foi pouco, merecia mais, mas pra ele tava bom. O garoto chorava e pagava de santo na frente de sua casa. Quando me viu chegando apontou pra mim e chamou pelo pai. Pensei, poxa, até que enfim um pouco de diversão. Engoli essas palavras ao ver o tamanho do sujeito. O cara era enorme! Respirei fundo, alguém tinha que fazer alguma coisa! Fiz o que estava a meu alcance, me virei e corri, corri o máximo que pude. O pai do pequeno filho da putinha estava de moto, logo me alcançou. Pulei um muro na tentativa de escapar dele, mas não deu muito certo, ele me puxou pelas calças e me arrastou pra baixo. Depois disso não me lembro bem quantos socos levei, ou o quanto a minha honrada mãe foi injustiçada, só sei que a dor de cabeça que tinha por conta da ressaca havia sumido, dando lugar a uma dor aguda no nariz que me fazia lacrimejar toda vez que tentava respirar. Voltei pra casa com apenas um olho aberto, passei pelo garoto da bicicleta, ele sorria e apontava o dedo pra mim. Pensei, o que é um peido pra quem já esta cagado? Dei-lhe um cascudo e um pontapé na bunda. Nem precisa falar que sai correndo pra casa antes mesmo de o garoto reclamar com o pai outra vez. Cheguei em casa, tomei a aspirina, comi os dois pães que pude comprar; fui ao banheiro e limpei minha cara, ou o que havia sobrado dela. Neste dia cheguei a conclusão de que nem sempre os mais fortes ou os mais justos vencem nesse mundo. Um mundo meio injusto, não acham?
Felipe Ribeiro
Felipe Ribeiro
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Sobre a verdade. (parte 2)
O homem, simplório como era, não pôde entender de imediato o que o velho quis dizer... Saiu da caverna tomando mais cuidado para com os degraus, não só porque temesse cair, mas antes porque sabia o que era a dor de cair de uma escadaria. Com o auxilio da prudencia ele enfim reparou que a cada passo que dava sentia o vento em sua cara, ouvia o seu som, seu frio, seu sabor...
Desceu a montanha se sentindo renovado de alguma maneira, olhou para os lados e viu a pobreza do vilarejo... Mulheres idosas carregando fardos de gravetos imensos que as obrigava a quase andar de gato, crianças barrigudas que ha muito perderam a graça de brincar e que agora estavam a ajudar suas familias com o trabalho na lavoura... Como ele não pôde enchergar todos esses abusos do mundo? Foi o que ele se perguntou... Então, de súbito, ele reparou em outro absurdo: O seu antigo problema era mais simples do que ele pensava... Sentiu vergonha, quis andar sem ver todos os horrores ao seu redor... Quis fugir, e assim o fez. Chegando a uma cidade mais próxima dali entrou em um bar, pediu uma cerveja. Um rapaz de seus doze anos o atendeu. Era sujo e seus olhos não brilhavam nada, nem tristeza, nem agonia, nem mesmo indignação. Não continuou com a cerveja. Sentiu que uma mão havia pousado em seu ombro. Ele se virou e viu uma moça, simples, vestida minimamente e com um olhar escandalosamente triste. Era uma antiga freguesa. Ela deu-lhe a oferta habitual. Ele começou a chorar. Como não poderia não reparar nos olhos dela anteriormente, das outras vezes? Se sentiu imundo. Saiu do bar, já era noite alta. Entrou em um hotel barato. Não conseguiu dormir. Um pensamento latejava: "Como pude ser tão egoista?". A verdade não lhe deu paz, ao contrário de como haveria de imaginar. Decidiu ir no Guru outra vez, aquilo ficara mais insuportável quanto antes. Ele queria a paz, e não o caos!
Chegando ao altar viu-se a mesma cena. O velho estava sentado na pedra. Olhava serenamente para o homem. O homem então lhe disse:
- Essa verdade é insuportável! Não é essa verdade que eu gostaria de ver!
O velho suspirou, sorriu, e então lhe disse:
- A verdade é que fazer o chá de boldo dá muito mais trabalho do que tomá-lo. Mas, quando se toma, todo o sacrificio se torna aceitavel. Voce quer tomar o chá, mas para tanto voce quer que alguém o faça para voce... Como pode isso? E quando ninguém mais cooperar para com as suas dores, como vai ser? Preferirá não tomar o chá e se acostumar com as suas dores, ou irá faze-lo?
- Não sei fazer esse chá...
- Ora, é tão simples! Colha as folhas, encha uma panela com água e esquente... Fazer o fogo é mais dificil, esse é o trabalho... Para que o chá fique bom, a água tem de ser fervida, e fazer o fogo não é facil...
O homem então entendeu alguma coisa disso tudo. Ficou com medo, ou uma súbita preguiça. Mas lembrou-se das dores, da aflição e do desespero. Resolveu pintar o quadro a sua frente com fortes pinceladas, dar-lhe cor, tom, forma. Como? Cada um saberia a melhor maneira de o faze-lo.
Felipe Ribeiro
Desceu a montanha se sentindo renovado de alguma maneira, olhou para os lados e viu a pobreza do vilarejo... Mulheres idosas carregando fardos de gravetos imensos que as obrigava a quase andar de gato, crianças barrigudas que ha muito perderam a graça de brincar e que agora estavam a ajudar suas familias com o trabalho na lavoura... Como ele não pôde enchergar todos esses abusos do mundo? Foi o que ele se perguntou... Então, de súbito, ele reparou em outro absurdo: O seu antigo problema era mais simples do que ele pensava... Sentiu vergonha, quis andar sem ver todos os horrores ao seu redor... Quis fugir, e assim o fez. Chegando a uma cidade mais próxima dali entrou em um bar, pediu uma cerveja. Um rapaz de seus doze anos o atendeu. Era sujo e seus olhos não brilhavam nada, nem tristeza, nem agonia, nem mesmo indignação. Não continuou com a cerveja. Sentiu que uma mão havia pousado em seu ombro. Ele se virou e viu uma moça, simples, vestida minimamente e com um olhar escandalosamente triste. Era uma antiga freguesa. Ela deu-lhe a oferta habitual. Ele começou a chorar. Como não poderia não reparar nos olhos dela anteriormente, das outras vezes? Se sentiu imundo. Saiu do bar, já era noite alta. Entrou em um hotel barato. Não conseguiu dormir. Um pensamento latejava: "Como pude ser tão egoista?". A verdade não lhe deu paz, ao contrário de como haveria de imaginar. Decidiu ir no Guru outra vez, aquilo ficara mais insuportável quanto antes. Ele queria a paz, e não o caos!
Chegando ao altar viu-se a mesma cena. O velho estava sentado na pedra. Olhava serenamente para o homem. O homem então lhe disse:
- Essa verdade é insuportável! Não é essa verdade que eu gostaria de ver!
O velho suspirou, sorriu, e então lhe disse:
- A verdade é que fazer o chá de boldo dá muito mais trabalho do que tomá-lo. Mas, quando se toma, todo o sacrificio se torna aceitavel. Voce quer tomar o chá, mas para tanto voce quer que alguém o faça para voce... Como pode isso? E quando ninguém mais cooperar para com as suas dores, como vai ser? Preferirá não tomar o chá e se acostumar com as suas dores, ou irá faze-lo?
- Não sei fazer esse chá...
- Ora, é tão simples! Colha as folhas, encha uma panela com água e esquente... Fazer o fogo é mais dificil, esse é o trabalho... Para que o chá fique bom, a água tem de ser fervida, e fazer o fogo não é facil...
O homem então entendeu alguma coisa disso tudo. Ficou com medo, ou uma súbita preguiça. Mas lembrou-se das dores, da aflição e do desespero. Resolveu pintar o quadro a sua frente com fortes pinceladas, dar-lhe cor, tom, forma. Como? Cada um saberia a melhor maneira de o faze-lo.
Felipe Ribeiro
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