terça-feira, 25 de agosto de 2009

A angustia do belo.

Lá estava a garota que vivia fazendo pose.
Sua cara era carregada de maquiagem,
Seu sorriso carregado de desespero.
Mas nem por isso ela perdia a maldita pose.
Parecia uma fotografia, vivia com o mesmo tom,
Com a mesma crina, com a mesma ilusão.
Andava ereta, empinada, mostrando tudo o que tinha.
Mas nem tudo era de fato tudo.
Tudo nela gritava socorro.
Tudo nela queria ser.
Só ser, autenticamente.
Maquiagem, roupa da moda, bijuterias, perfumes...
Ela vivia trabalhando com os sentidos,
Com os instintos alheios...
E só.
Nisso se baseava toda a sua existencia.
Um grande imã de sentidos.
De olhares, de desejos, de vontades.
Tudo nela girava em torno disso.
De impulsos orgiásticos, nervosos, inquietos.
Era nisso que ela procurava dar o seu melhor.
Era nisso que ela depositava todo o seu poder.
Era nisso que ela não poderia deixar de viver.
Era nisso que ela se prendia.
Cada vez mais dependia disso.
Cada vez mais gostava disso.
Cada vez mais morreria por isso.
O mundo era uma grande passarela para ela.
O mundo era a sua vitrine.
E ela posava para o mundo.
E como todo astro ficava parado.
E o resto todo a girar em seu redor.
Era pelo menos nisso que ela acreditava tão seriamente,
E era pelo menos nisso que ela sangraria eternamente.
Todos os olhares...
Mas nenhum toque.


Felipe Ribeiro

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Da serenidade.

Olhei nos meus bolsos e tinha o suficiente para encher a cara até a noite. Eu já estava um pouco tonto e resolvi andar pra sentir, quem sabe, um pouco de alguma coisa. Fui até uma praça no centro da cidade. O lugar era cheio de árvores e havia uma igrejinha muito antiga pintada de azul celeste. Era tranquilo, mas apesar de tudo ainda sentia as garras do desespero se agarrando a minha vida. Não sabia bem o porque, mas naquela época eu me sentia profundamente melancólico. Observei um casal de jovens se beijando e trocando carícias, sorrisos e risadas contidas em palavras ditas baixinhas ao pé do ouvido. A moça deitada com sua cabeça no colo do rapaz adormecera. Ele a acariciava. Estavam os dois sentados num banco ao pé de uma mangueira enorme. Eu estava escorado num poste da praça a mais ou menos uns 20 metros de distância do casal. Gente ia, gente vinha. Carros iam e vinham. Pardais faziam estardalhaço e cagavam no chão. O mundo parecia alegre naquela tarde. A coerência do mundo se fazia presente naquilo que chamam de alegria. E eu via a alegria plena na serenidade do casal de namorados. Por alguma razão aquilo tudo me fez lembrar do quanto eu era panaca, bunda mole, frouxo e vagabundo. Não caminhava no mesmo ritmo das outras pessoas. Cheguei a pensar que era algum retardado, coisa que aliás eu tenho lá minhas dúvidas se não sou. Nunca corri para alcançar um ônibus, nunca corri para entregar a produção do dia no horário estipulado pelo patrão. Nunca li alucinadamente na tentativa de aproveitar o tempo para ler de tudo. Sempre tive meu tempo, ou melhor, sempre fiz meu tempo; e te digo uma coisa, sou lerdo para com isso. Nunca consegui suportar a idéia de que eu teria a oportunidade de ser "melhor" do que fulano ou beltrano. Para que tanta pretensão? Sempre deixei escapar a chance de me dar bem na vida através daquilo que os moldes hipocritas da sociedade de consumo tenta pregar e disciplinar. Agora lá estava eu, meio zonzo pela cerveja olhando toda aquela serenidade do casal que realmente não se importava nem um pouco com tudo isso que eu estava ruminando. Ainda bem, eu pensei, ainda bem...


Felipe Ribeiro

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Do mergulho.

Me sinto esmagado pela sombra de uma futura dor...
Uma dor inevitável que vem ao longe...
Acenando com um sorriso, de braços abertos...
Para mim que um dia lhe amei.
Ela vem a passos largos
Carregando um olhar de cúmplice.
Cumplicidade de velhos tempos
Que só pertence àqueles que viveram juntos.
Na atual conjuntura ela até que é bem vinda...
Dar-me-ia um sentido, algo mais profundo...
Quem sabe ela venha pra me destruir de vez?
Quem sabe ela venha para me deixar mais manco?
Mais sábio?
Mais duro?
Mais brando?
Só sei que ela vem...
Ansiosamente aguardada, desejada...
Amada até.
Será que mudaria meus sonhos?
Minha visão?
Minha paixão?
No que eu mudaria?
Que vontade teria?
Que coragem surgiria?
Em que me arruinaria o seu abraço?
Não me importa...
Ela vem, disso eu sei...
Ela vem.
Como a tempestade ao longe
Com seus trovões, seus ventos, seu cheiro.
Ela vem.
E só a sua sombra já me faz perder o fôlego...
Talvez porque eu esteja aguardando o saltar.
Para o mergulho.


Felipe Ribeiro

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

As garras da gata.

Não se escuta os passos, mas sabe que esta ali
Do lado, caminhando, serena
Reservadamente fiel a si
Mas esperançosa por ser a outrem.
É em outro que ela afia as garras
É em outro que pode mostrar a graça
De saber ser forte e leve
Como a navalha.
Graciosa em sua pequenez
Espantosa em sua astucia
Vive a vida com fluidez
Para soltar a sua fúria.
E é nela que sobrevive o seu amor
É nela que ela mesma acha o seu melhor
E é nela que ela cria o seu valor
Seu valor que a livra do seu pior...
Enquanto isso suas garras estão escondidas
Esperando o momento para cortar com frieza
Para abrir espaço a suas causas perdidas
E tratar a vida com mais leveza...


Felipe Ribeiro

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Do expurgo.

Longe de ser uma noite agradável aquilo parecia uma noite sem sabor, sem cor, fria, opaca, cinza e o pior de tudo era que aquilo tudo estava praticamente virando um hábito. Eu suado depois de fazer um esforço quase que humilhante pra tentar ser no minimo agradavel para aquela mulher que eu nem fazia lá muita questão de conhecer, ela falando sem parar da vida mediocre que levava, um grande blablabla que as vezes se misturava ao meu sono e que não dava pra entender muito bem. Já estava quase dormindo se não fosse o vinho para me distrair. O mais foda disso tudo é que a garrafa estava com ela e ela não fazia muita questão de dividir aquilo. O meu tempo foi novamente roubado pela atenção que ela pedia para si. Aliás, meu tempo não me pertence muito ultimamente, vivo dando ele para as baratas e para as futilidades frivolas desse mundo. Enfim, pedi-lhe a garrafa. Ela me devolve. Vazia. Dou um grande suspiro, olho pra ela e ela me pede um beijo. Dou outro grande suspiro e fecho os olhos. Os bafos de vinho barato se encontrando, o gosto acre da lingua dela se encontrando com a minha me fez pensar bem na vida que eu estava levando, no meu futuro, no que eu tinha feito pra merecer aquilo e quem sabe pensava um pouco em dignidade... Na dignidade que naquela hora estava me fazendo falta. Ela se senta no meu colo e começa a tirar a blusa... Ora, vamos lá, pensei, vamos lá... E fomos. Foi tristemente bom, se é que isso pode ser possível, mas foi. Não deu muita cor praquela noite, mas ao menos foi agradável. Salvo o incoviniente de ela resolver começar a falar depois do esforço, foi agradável. Ela começa a mecher na minha cabeça, faz um afago nos meus cabelos. Enfim, tive que perguntar:
-Então, que é que ce tá fazendo?
-Nada... Por isso to angustiada...
-Sei...
-Eu sei que sou uma fútil, sabe? Eu sei que sou uma narcisista...
-Poxa... Obrigado pela parte que me toca.
-Não é isso que quis dizer, desculpa... mas eu me sinto tão... fútil...
-É, de fato, você liga demais pra sua imagem... vive colocando maquiagem, roupas justas, decotes enormes...
-Você me acha a maior narcisista né?
-Não sei se um narcisista sabe se é narcisista...
-Por isso mesmo eu me assusto... Eu sei o que é um narcisista e repito certas práticas, sou muito vaidosa!
-É, pode ser isso mesmo... Mas, vaidade não precisa de um outro como alvo? O Narcisista só atinge ele mesmo, ele é o alvo, não?
-Mas é pra mim mesma! Eu tenho a necessidade de provar pra mim mesma que sou a mais bonita, a mais inteligente a mais uma porrada de coisas do que as outras garotas...
-Enfim... - soltei um suspiro - Isso pra mim é perda de tempo.
Ela ascendeu um cigarro, ficou fitando o teto. Talvez ficou esperando eu falar alguma coisa, não entendo muito as mulheres, graças a Deus.
-Por que é que você tem essa necessidade de provar que é melhor que as outras mulheres? - Enfim perguntei.
-Sinceramente... Não sei. Acho que é porque eu acho um saco essa mania que as pessoas tem de confundir consciência social, altruismo ou seja lá o que for com feiura...Odeio o estilo porra louca só porque faço Ciências Sociais. E noventa por cento das meninas desse curso são feias!
-É... Concordo.
-E to pouco me fudendo se as pessoas me acham futil por causa do meu estilo!
-Sei... Bom, porra, se você se sente bem com imagem, vai fundo... Digo, fundo não porque imagem é superficial...
-ahahaha... É verdade. Mas o lance é que eu adoro fazer o papel de guria fatal!
-É... já notei isso mesmo... E nem ligo como você pode reparar...
-Não liga mas tá aqui pelado do meu lado...
-Você implorou por isso.
-Vá se foder!
Ficamos em silêncio por algum tempo... Ela ascendeu outro cigarro. Então eu recomecei.
-Olha, acho que você está tremedamente errada, mas não te condeno por isso... quem não erra né?
-Do que você tá falando?
-Porra... Da sua atitude perante você mesma.
-Hum?
-Na boa... Eu sei que esse é seu jeito, sua estratégia de sobrevivência nesse mundinho de merda, mas é o seu jeito, sua estratégia, não você em si. É a sua escolha, infeliz, mas é a sua escolha...
-Posso ser sincera?
-Já era hora né?
-Engraçadinho... Bom, sinceramente eu não sou infeliz por ter escolhido isso, e outra, eu não sou nenhuma puta, não vivo disso! Eu simplesmente gosto disso, sabe, desse jogo!
-Então... você gosta desse joguinho de sedução? Desse poder, dessa sensação de superioridade que a imagem pode causar, é isso?
-Exatamente, agora você me entendeu...
-Poxa... Você de fato é uma fútil mesmo... Poder é uma coisa tão imbecil!
-Discordo plenamente!
-Tá.. então me fala, o que te atrai nisso tudo, esse negócio de poder?
-Uai... O poder!
-Tá... Poder de que? Pra que você usa isso? Porque você usa isso? De que vale isso? Até onde isso te traz respeito?
-Acho que um pouco de identidade... Odeio ser comum.
-Isso é neurótico!
-Cada um com suas neuroses! Eu sempre fui ligada a ideia da loira gostosa, louca e extrovertida...
-Isso é besteira, isso é imagem! Você mesma me disse agora a pouco que não se sente bem com isso... Voce se sente segura mas não bem, isso é diferente! Isso é uma máscara, um escudo inutil...
-FODA-SE - Ela gritou.
-Enfim... Foda-se.
-Cansei de criticar tudo, sabe?
-Não é criticar sua cretina imbecil! É ser você mesma! Você se vende a preço de imagem!
-Foda-se! Eu ganho com isso!
-Ganha?
-Pelo menos tenho alguns privilégios...
-Privilégios né? Sei... Você não nota que esta afundando cada vez mais nessa prisão? No fim das contas espero que a ignorância te cegue para o verdadeiro problema e você viva feliz...
-Ignorância, eu? Impossível!
-Tá, que seja... Você é uma acomodada.
-Hum, pode ser, ganhei muito pouca sendo revoltada, comunista...
-Isso é imagem também... Você não consegue desvincular um estereotipo de você mesma...
-Não mesmo...
-Falta a segurança necessária pra você ser você mesma... Você liga demais para o que os outros pensam, caso contrário não usaria essa mascara toda.... E cade seu poder nisso tudo? Você é uma medrosa, isso sim uma medrosa! Se eu estiver enganado, bom, foda-se!
-Não... pode falar...
-Já falei o que tinha pra falar, porra. É isso! As pessoas simplesmente não me surpreendem mais. É por isso que sua banca toda não causa o menor efeito em mim, entende? É por isso também que eu sinto pena dessa sua escolha idiota. Poder reside nisso mulher, em ser autônomo, e não escravo de uma imagem que lhe convém! Não ficar escorado numa imagem pra sobrepujar outras pessoas... Isso é desespero! E eu vejo essa sua opção como a mais equivocada de todas.
-Equivocada... Em que medida, porque você fala isso?
-Equivocada na medida em que isso só alimenta a futilidade do mundo. E ao fazer isso aumenta a injustiça e a indiferença perante o outro, como se o outro fosse apenas e tão somente um degrau pra se pisar.

Depois disso ela ficou em silêncio, fitando o teto daquela sala imunda. Eu não tinha mais nada pra falar, estava cansado. Dormi. No outro dia, pela tarde quando acordei, nem vi mais sinal dela na sala ou na casa. Tomei um banho e pensei na vida. Só pensei, nada além disso.


Felipe Ribeiro

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Do sucesso.

A existência só pode ser preenchida com a vontade.
A vontade só pode ser preenchida com a motivação.
A motivação só pode ser preencida com a esperança.
A esperança só pode ser preenchida com a confiança.
E a confiança com uma dose letal de ingenuidade.
No fundo temos que nos entregar...
Nos jogarmos num abismo...
Nos permitimos e colhermos alguma autonomia.
Se libertar, enfim.
Isso é ser Fé.



Felipe Ribeiro

Do fracasso

É como se todos os dias fossem a mesmíssima coisa...
Sem surpresas, sem aquela esperança tola...
Aquela que nos faz ficar acordados...
Buscando um foco para se distrair, um ser amado, encantado...
Uma imagem perfeita daquilo que se poderia querer...
Mas, nem isso, nem ao menos um ser...
Nem ao menos uma vontade...
Nem ao menos uma coragem.
E a cada tentativa permitida você se sente mais fraco...
Mais triste, desiludido...
Mais trapo...
Do que individuo...
Mais lixo do que vivo.
E nessas horas você sente o bom senso lhe pedindo clemência...
Como se o seu sangue, sua vida pedisse urgência...
E de relance você observa algo que poderia ser...
Mas respira fundo e se pergunta o por que...
A vida perde se não escutamo-la...
E só a ouvimos quando paramos de vivê-la...
É um som baixinho no pensamento, na cabeça...
E é o que te faz ter firmeza...
Firmeza é outra proeza...
Felizes dos distraídos que se encantam facilmente...
Eles não se atormentam constantemente.


Felipe Ribeiro

terça-feira, 21 de julho de 2009

Pequenos deuses

Assim como o paradoxo esbofeteia a lógica
Eu tento fazer o mesmo com a falsa moral
Aquela que cada um de nós carrega
E que deixa a mostra
Sem o menor pudor ou consciência.
Mas o que me impressiona mais
É que não consigo mais me impressionar.
Não que eu queira achar alguém de alma completamente pura
Não que eu queira achar um santo
Ou um demônio completo.
Mas ao menos um humilde...
Ao menos um sincero...
Ao menos um descontente com algo real.
Não simplesmente com fantasmas insanos.
O que eu encontro no caminho são pequenos deuses
Pequenos deuses...
Todo poderosos em sua arrogância
Todo poderosos em sua busca insana
Em seu auto engano constante
De dissimular aquele tirano moral
Que come a carne, a vida, a espinha dorsal
De quem quer que entre em seu caminho.
Projetos de moralidade
E futilidade plenas.
Matam sem ao menos saberem disso
Cospem fora o sumo que não lhes convém.
E assim caminham entre nós, a maioria.
Um panteão de ignorantes.


Felipe Ribeiro

terça-feira, 14 de julho de 2009

Conversas com uma amiga.

Ora muito bem... O apartamento era simples, a festa banal, a música boa e as companhias essenciais... Enquanto a música rolava e alguns amigos iam pra varanda, eu e ela ficamos sentados no chão, um de frente para o outro, cada um com seu cigarro e seu copo de vinho tinto barato. E o vinho, ahh o vinho! E os cigarros pra ambientar melhor a atmosfera daquele momento mágico de uma conversa um tanto bebâda, mas franca, com uma grande amiga.
Olhei para ela e dei de ombros, num sorriso sem dentes. Ela então começou...
-Então Frank... O que é que há?
-Olha... boa pergunta. Eu não sei.
-Quem é que sabe de alguma coisa nessa vida?
-É... porra... é... Enfim, eu acredito que cheguei a uma conclusão bastante interessante sobre tudo isso...
-Sobre tudo isso o que?
-Isso tudo... Veja, acho mesmo que podemos falar no máximo daquilo que nos condiciona, saca, da nossa condição ignorante no mundo? Mas, o que somos em si acho que é pura especulação.
-Concordo contigo Frank...
-Porque somos tudo e nada ao mesmo tempo, somos uma comparação, entende? E por sermos uma constante comparação nós mudamos constantemente...
-Exatamente! Eu acho que nunca somos, apenas estamos, apesar de sermos algo, entende?
-Sei... interessante porque enquanto somos, estamos... E enquanto estamos, somos.
-É! Logo nem nós e nem ninguém sabe de fato o que somos, tipo, sabemos que somos algo, mas nos conhecemos a partir do quando em que estamos, em diferentes momentos...
-Sim porra... É essa a nossa condição no mundo, perante ele e perante os outros e perante a nós mesmos... É disso que podemos falar sem medo, ou melhor, especular seguramente... Pode isso tudo não passar de um sonho de um maluco?
-Poxa Frank... Vivo me perguntando isso! É mais um mistério que me enlouquece...
-Porra... Pergunte isso vivendo... entende?
-Sim, é isso que tenho feito nos ultimos tempos...
-Quer mais vinho?
-Quero, enche ai...
-Então... Que bom... Sabe, viver a vida e esquecer de certas coisas servem justamente para não nos enlouquecer de vez, ou melhor, não perder o fio da meada... saca? Aquela pouca fé que temos e que de vez em quando nos sustenta...
-Exato! É por isso que tenho me sentido tão bem... Tem fogo ai?
-Perae... Toma o isqueiro...
-Sabe... eu cheguei a conclusão de que cada um fica bem ao seu modo Frank... Mesmo aquelas pessoas que vivem se punindo e blablabla, se aquele é o jeito delas, então porque não deixá-las serem assim?
-É... te entendo, mas ainda acho que deve ter um limite... Senão a pessoa se auto-obseca e fica se fodendo pensando que esta bem...
-Aham... Concordo contigo, mas digo que cada um tem seu jeito de ser feliz. Não existe um estereotipo de felicidade, apesar de usarmos muitos sem querer e sem notar...
-Felicidade... Puta que pariu... Felicidade... Que é ela pra você?
-Olha... pra mim felicidade é o que passamos a vida inteira conquistando, saca? É a falta de algo, a angústia do não ter e a alegria por conquistar. É partir pra outra Frank, é o motor da sociedade!
-Isso é insatisfação, não?
-Acho que não, porque satisfação nos deixa deprimidos, as vezes pode sim nos impulsionar e tal... mas nos impulsiona pra ir de encontro com a nossa felicidade que, na minha concepção, nunca é plena.
-É.. mesmo porque se for plena não tem mais porque ser feliz. É como a lamentação... Quando acaba a causa dela não tem mais um porque existir... vira um fantasma.
-Isso mesmo!
-Legal, legal... então a falta é o que nos impulsiona... E não pode ser plena porque falta?
-É.. penso assim. Pode não ser verdade, mas penso assim...
-Pra mim faz todo o sentido.
-Bom então... vinho por favor!
-Opa...
Nessa hora ficamos bebericando cada um o seu copo de vinho, pensando em tudo que acabávamos de dizer... A coisa fluia... Ficava claro, apesar de sabermos o quão ignorantes ainda o erámos para com qualquer coisa que fosse. Olhei pra ela e ela sugava lentamente seu cigarro, olhando pra varanda, para o céu escuro daquela madrugada... O vinho acabou e fui buscar mais. Alguém a chamou na varanda. Bebi uma garrafa inteira sozinho. A festa valeu a pena.


Felipe Ribeiro & Dinah Lorena

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Amanda

Então tinha aquela velha vizinha que eu conhecia tão bem quanto a minha mãe. Essa vizinha, por sua vez, tinha uma filha linda que trabalhava o dia inteiro e que, por sua vez, tinha uma filhinha de seus 5 anos de idade que, por sua vez, passava o dia todo na creche ou escolinha ou hotel escola, enfim, porra, não sei o nome mais disso. A avó trabalhava de doméstica numa casa de madame longe da cidade e também passava e lavava roupas de estudantes vagabundos de república. Nesse dia em particular ela estava com mais de cinquenta quilos de roupas pra passar e por esta razão me pediu pra ir buscar sua netinha, de nome Amanda, na creche ou escolinha ou hotel escola naquele dia. Não era a primeira vez que eu buscava a menina lá naquele antro de meninos catarentos e barulhentos, de modo que eu já era conhecido pelas professoras. A Amanda, naquela época, era a única criança que eu conhecia. Não, talvez ela fosse a única criança que me conhecia de verdade, e só por isso eu gostava dela, de verdade. Bom, enfim, quando cheguei no local as crianças já estavam saindo e se juntando a seus respectivos pais.
- Vim buscar a Amanda. - Disse para uma professora gorda e com cara de cansada.
- Ah sim, um minuto. - Me respondeu com um suspiro, como se tivesse corrido uma maratona.
Aquele barulho todo insuportável de crianças rindo, gritando e algumas chorando me fez ter por alguns instantes nauseas. Aquele cheiro de giz de cera, massinha de modelar e alcool do mimiografo me fez lembrar da minha infância.
-Tio Xelipe! - Gritou a Amanda que veio correndo em minha direção arrastando sua mochila de rodas. Ela estava gripada e por isso mesmo falava tudo mais errado do que de costume. Me deu um abraço que envolveu minhas coxas e não queria mais se desgrudar.
-Olha, ela tem dever de matemática pra fazer, fala pra avó dela. - Disse a professora.
-Pode deixar.
-Cadê vovó Dinha? - Perguntou a menina.
-Tá trabalhando, agora desgruda pra eu poder te levar pra casa.
Ela me deu a mão e fomos andando. Ela andava muito devagar e a todo o momento me pedia para carrega-la no colo. A inssistência foi tanta que sugeri sentarmos na calçada um pouco pra que ela pudesse descansar. Sentamos na calçada, ela tirou as sandálias e ficou jogando pedras no meio da rua. Aproveitei pra deitar na calçada e curtir um pouco a sombra da árvore em que estávamos embaixo. Ela parou de jogar as pedras e se deitou ao meu lado e ficou lá me fitando até me deixar sem graça. Por fim ela me obrigou a perguntar:
-Que que ce tanto olha menina?
-Seu naliz. É bremeião!
Sim, claro, depois de ter passado a tarde toda bebendo uma garrafa de tinto meu nariz fica um pouco vermelho mesmo.
-Tá... E o que que tem ele assim?
-Palece um paiaço! Ce é paiaço?
Sim, ela era honesta, ainda tinha o compromisso com o que sentia, com o que via, e não fazia menssura de não compartilhar isso com os outros... Quando é que isso acaba nas pessoas?
-Ahahahahaha! Boa! Sou sim princesa...
-Então puque você não sorri?
-Porra, como assim? Não acabei de rir?
-Mas ce não faiz ri! Que cicu você é?
-O circo que eu trabalhava fechou.
-E ce já plocurou otô cicu?
-Não, ainda não.
-AATCHIN!
-Deus te crie princesa...
-Ameín!
-Já descansou né? Vamo bora então!
-Ah não! Num quelo i pra casa!- Dizia isso enquanto calçava suas sandálias.
-Que bobagem é essa agora?
-A vovó semple me pegunta se eu tenho deve di casa. Aí eu tenho que fazê!
Sim... Ela ainda tinha inocência, ainda era dura de caráter, não sabia mentir... Quando é que isso acaba nas pessoas? A avó trabalhava o tempo todo na cozinha passando as roupas, e quando a menina tinha dever pra fazer ficava muito mais fácil vigiá-la. Isso era uma tortura pra pequena que gostava de brincar o dia inteiro com seu cachorro.
-Me mostra o dever de matemática ai vai...
Ela buscou o caderno de matemática dentro da mochila de rodas e me entregou. Nada de mais, mesmo para mim que não sabia muita coisa de matemática ou de algo exato no mundo. Podia fazer aquilo tudo em 5 minutos. Foi daí que tive uma idéia.
-Vem comigo Amanda.
-Onde qui a gente vai?
Estava levando ela num pequeno armazém que tinha numa esquina perto de casa. Chegando lá me sentei na calçada e entreguei 5 reais para a Amanda gastar com o que ela quisesse lá dentro. Fiquei esperando ela do lado de fora com seu dever de matemática em mãos. Fiz todo o dever. Ela voltou com dois pacotes de salgadinho e um saco de papel lotado de balas. Me entregou um dos pacotes e eu devolvi pra ela. Sim, ela ainda tinha decência de se lembrar dos outros... Quando é que isso acaba nas pessoas?
Entreguei o caderno com o dever de matemática pra ela. Ela guardou e nem desconfiou de nada. Sim, ela era pura, quando é que isso acaba nas pessoas? Fomos embora pra sua casa e sua avó já estava maluca atrás da gente.
-Oceis que me mata! -Disse a velha aliviada por nos ver.
-Calma dona Dinha, tava dando uns agrado pra menina.
-Ela vai fica mal acostumada com isso! É por isso que ela gosta do cê, ce vive comprando essas bestera pra ela come!
-Tá bom, tá bom...
-Tem dever hoje? - A velha me perguntou.
-Tem de matemática. -Respondi.
A menina soltou um suspiro enquanto descascava uma das balas. Despedi da velha e Amanda me abraçou. Falei pra ela ir brincar com o cachorro dela. Ela disse, relutante, que tinha dever pra fazer. Quando é que o medo quebra a vontade? Não disse a ela que tinha feito o seu dever. Queria que ela tivesse uma surpresa. E teve, claro que teve, pois naquela mesma tarde, enquanto eu estava sentado na calçada esperando qualquer coisa eu a vi brincar na garagem de sua casa com o seu cachorro. Ela me olhou e me deu um tchau com as mãos. Eu dei outro e ela continuou a brincar com o cachorro.


Felipe Ribeiro