domingo, 13 de dezembro de 2009

Saber da queda

Talvez seja quando estamos mais cientes do controle total do nosso próprio coração, talvez nessa ilusão de poder é que estamos na verdade mais vulneráveis. Isso porque a gente concentra toda a nossa atenção, todo nosso foco para dentro de nós, para dentro de nossas dores, sufocando-as, e é ai que nos esquecemos de notar o exterior, lá mesmo, onde tudo pode acontecer. É ai que não vemos as pancadas a quais estamos sujeitos. Há pancadas e pancadas, algumas são tão fortes que nem a sentimos por completo, só caimos pelo golpe, sem saber onde, quando e porque. Há outras que são leves, sutis, um toque macio que faz dormir e com isso te faz cair também. No fundo temos que saber cair, controlar ao menos a queda pois ela é inevitável ainda que em alguns casos desejável, mas isso não nos livra de cair. Saibamos cair, então.

Felipe Ribeiro

sábado, 14 de novembro de 2009

Conversas pra boi dormir, parte 6.

Ora muito bem, eu estava na biblioteca tentando estudar um pouco. Eu disse tentando, porque simplesmente não consegui. A biblioteca da universidade em que estudo consegue ser tão barulhenta quanto um canteiro de obras. Isso sem contar as pequenas distrações que simplesmente passam por seu campo de visão e olfato. Geralmente começa pelo olfato, um perfume suave, feminino, depois acaba no campo visual com o corpo que carrega esse perfume; o que significa geralmente um corpaço feminino. Enfim, necessita-se de muita disciplina e força de vontade para estudar num ambiente desses. Quando eu penso que enfim posso voltar e ler a página que estou tentando ler a mais de vinte minutos eis que me aparece aquele meu amigo que, ironicamente, me pergunta:
-E ai Frank, como é que tá?
-Uai cara... desse jeito que você tá vendo.
-Ixi, que aconteceu? Um acidente? - Sim, eu acho que já disse que ele era irônico, ou ao menos tentava ser.
-É... pois é.
-Mas e ai, quanto tempo!
-É... pois é.
-Que anda fazendo de bom?
-Ahh.. enfim, você sabe...
-Nada né?
-Justamente!
-Eu estou dando aula pra caramba, o cursinho esta me ocupando muito tempo... E ainda estou fazendo a monografia! - Não me lembro de ter perguntado nada a ele, mas tudo bem.
-Ahh é... Eu também estou fazendo a monografia. -Lembrei subitamente do que estava tentando fazer naquela biblioteca.
-Mas e ai Frank... Arrasando os corações?
-Heim?
-Perguntei se continua arrasando os corações das mulheres. - Eu já comentei que esse meu amigo é muito irônico?
-Ahh... Bom cara, duvido muito que as mulheres tem isso.
-Isso o que?
-Coração. Sabe como é, quando algum filho da puta que arrasa com o coração delas e elas ficam traumatizadas e se fecham para qualquer um que apareça na sua frente ou simplesmente quando a vaidade delas é tanta que não conseguem doar nada que só o seu corpo.
-Sei como é isso. Na verdade acho mesmo que o senhor poderia muito bem arrasar algum. Você é um sujeito bacana, inteligente, bom. - Outra vez a ironia. Fico pensando, se eu tivesse a competencia de ser ao menos um filho da puta eu não estaria sozinho hoje em dia. Mas, como sugere o meu amigo irônico, sou um homem bom, bacana, inteligente... Por isso estou sozinho? Que ironia.
-Pois é né... pois é. - Outra vez o foda-se.
-Bom grande, eu tenho que ir agora, bons estudos pra vc!
-Tá... valeu.
Na verdade não sei quem é mais ironico, se o meu amigo tentando me alegrar com mentiras que sei bem que não significam nada para a minha pessoa ou se sou eu que o considero ironico. Mas no fim das contas continuei a estudar... ironicamente.


Felipe Ribeiro

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Onde se encontra a paz.

Não estou num bom momento para escrever; aliás, fico pensando se já tive algum bom momento e se já consegui capturá-lo no que escrevo... Geralmente gasto meus bons momentos com alguma outra coisa, o que eu não sei dizer, ou mais provavelmente nem me lembro. De fato fica dificil responder quando me perguntam o que me deixaria feliz. Já me acostumei tanto com essa situação enfadonha, triste, bamba, que meu momento de felicidade seria no máximo um pouco de empolgação por estar fazendo alguma coisa fora da rotina e que durasse talvez algumas horas, ou alguns minutos... ou quem sabe, alguns segundos... Ou quem sabe, não durassem de fato nada porque nunca existiriam, foram todos ilusões, doces ilusões... Causas sonhadas mas que na realidade não causaram nada, só mais e mais fuga e consequentemente mais e mais fadiga... E consequentemente mais e mais peso para as minhas costas. Sinto-me arrastando um peso muito grande, um peso quase insuportavel... Parece que ando de joelhos, talvez a implorar inconscientemente e constantemente para que me deixem em paz, para que não me encham mais de esperanças, para que não me façam perder meu precioso tempo em tentativas vãs de ser no minimo decente para mim mesmo ou para alguém. Meu precioso tempo... Nem sei porque escrevi assim, força do hábito insano que carrego dessa cultura introjetada em mim desde pequeno e que pretende me tornar no futuro um pequeno burguês careca, barrigudo e constantemente preocupado com seus negócios... Meu tempo de fato é tudo o que eu tenho. Não sei dizer o quanto ele vai durar, mas sei que ao menos eu tenho isso... Mas existe uma grande diferença em saber o que se tem e saber o que fazer com o que se tem. Tento doar meu tempo para os problemas alheios, já que, aparentemente, não tenho nenhum problema; apesar de me sentir sempre atormentado por uma grande angustia e tristeza. O alivio de cada um esta em saber o porque de sua angustia... Todo mundo procura um porque para seus problemas; pelo menos aqueles que tem um compromisso sério com seu próprio bem estar. Para outros é um alivio não saber do porque de sua própria angústia, porque ela dá um porque, ainda que misterioso, em suas vidas... Há pessoas que se acostumam com ela, tornam-na sua melhor amiga, fazem piada dela, amam-na mais que a própria razão... Viciam-se em suas dores e fazem questão de ficar atoladas sempre que puderem em suas auto-piedades pseudo-confortadoras... Quando é que vou me desatolar, é o que me pergunto neste instante... Quando eu quiser, me responde o meu orgulho sempre triunfante, sempre fugindo da verdadeira batalha, sempre me apontando o caminho mais comodo, mais indigno... O problema de ser orgulhoso é a fuga constante. Na hora do vamos ver não se ve nada mais do que alguém correndo e olhando para trás triunfante de sua fuga, de mais uma vez não lutar, de mais uma vez poupar suas forças. Há algo de patético em mim, e deve ser isso... Talvez a prova de fogo ainda venha, talvez eu ainda consiga passar por ela, talvez eu prove a mim mesmo que sou mais do que isso que minha vaidade insiste em dizer que sou para mim mesmo; mais do que isso tudo que eu construi a preço de mentiras, de engenhosos desfiles de beleza moral, de surubas éticas em que me comprometi cegamente comprado por uma imagem que talvez me deixasse em paz com os outros, mas não comigo mesmo. Todos tem a sua prova, essa é uma das verdades dessa existencia... Todos têm a sua prova, e essa prova prova tudo o que somos, prova tudo o que deixamos de ser, tudo o que devemos ser e tudo o que escolhemos ser... No fim, é a prova que nos faz ser alguma coisa de fato para nós mesmos... A linha imaginária que basta um passo, um ato de coragem e determinação, um ato de compromisso e de fé em si mesmo, para fazer de nós algo raro, único, imprescindivel, belo e digno para nós mesmos... A beleza estaria ai e a paz estaria logo adiante.


Felipe Ribeiro

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Ápice.

Deixa subir a ilusão.
Penetrar o estrondo da esperança.
O delírio da paz, o entrar da confiança.
O transbordar da emoção.
Deixa aliviar o ego do peso de si mesmo.
Deitar os sonhos num berço de satisfação,
E esquecer por um instante do mundo, da vida, do tudo...
Em nome do ser sendo, do coração.
Do apelo já rouco, frouxo, murcho.
De anos de pedido de socorro.
Do convite insano ao absurdo.
Deixa e deleite-se.
E irá sentir o imenso vazio.
O profundo silêncio da alma.
E é ai, no ápice onde o terreno é baldio
Que começarás enfim a cultivar a sua descida.
O seu pouso, o seu findar;
O porque dos seus pés andarem e pisarem sobre a terra.
E é ai que serás poderoso,
Verdadeiramente poderoso para si,
Para o mundo, para mim e para a fera...
Que aguarda ansiosamente para te devorar.
E que por muito tempo houve apenas medo e derrota...
Dúvida e paralisia...
Hoje tenha apenas a certeza da vitória...
Mesmo que ainda o seja fantasia.
Mesmo que ainda o seja fantasia.

Felipe Ribeiro

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A avalanche

O mais frustrante em não se ter certeza se se é louco de fato é justamente não ter certeza se se é normal; mesmo que isso não signifique nada para quem leia ou para quem escreva isso. Nos deparamos nos comparando ao que seria loucura e normalidade em nós mesmos e adivinhem só, não se tem lá muita diferença. Na verdade eu ainda não sei se sou um louco que pensa que é normal ou um normal que pensa que as vezes é louco, ou quem sabe deve haver uma terceira via... A de realmente achar que se é alguma coisa e deixar pra lá. De fato essa terceira via é a que a maioria das pessoas usam, por preguiça de realmente buscar saber o que se é ou por pura prepotencia em afirmar que sabe de fato o que se é.
A maioria das pessoas se esquecem que há uma grande diferença entre saber alguma coisa e estar certo a respeito de alguma coisa, qualquer coisa, no minimo. E com isso apenas aceitam alguma coisa e colocam o nome daquilo de saber, não por respeito, não por admiração, não por que aquilo em si traz um sentido mais profundo em sua existência... A maioria aceita por preguiça e por vaidade; por saberem que o saber X e o saber Y concedem-lhes um status superior perante os outros ou por simplesmente saber que um saber X e um saber Y são as portas de entrada para uma futura carreira de sucessos, como se o saber fosse uma arma contra todos que querem tomar a cadeira naquele jogo infantil da dança das cadeiras.
Agora penso eu se a minha loucura é ainda achar que sou normal. Talvez o seja, já que ser normal hoje em dia nada mais é do que colecionar o que não se é em nome simplesmente do que acha que é melhor ser, não para si, mas para o jogo mesquinho que ai esta e que confere um premio, ao final de tudo, de bajulação vazia de quem não conseguiu ser pior do que o vencedor.

Felipe Ribeiro

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Da misericórdia.

Noite. Obviamente eu estava andando pelas ruas do centro da cidade e, obviamente, estava com fome. Como de praxis escolhi um boteco de esquina, todo fodido de velho e que cheirava a coisa ultrapassada, estagnada, doentia e um tanto quanto maléfica. Antes de chegar ao estabelecimento porém, fui abordado por um ciclista (mais conhecido como bicicleteiro aqui aonde moro) que me pediu com toda a educação:
-Tem fogo maluco?
-Não.
Diante de tal diálogo automatizado eu continuei andando em frente rumo ao tal buteco. Ao avistar o tal buteco percebi que o ciclista escolhera o mesmo estabelecimento para pedir fogo. Afinal, ele tinha bom gosto, pensei. Esse boteco ficava bem na frente de um bar de esquina, aquilo que hoje em dia costumam chamar de point do momento, e que vivia cheio de gente. Por essa razão em especifico entrei no boteco fodido. Dentro dele haviam quatro pessoas. Um cara no balcão que bebia uma cerveja vestindo um uniforme de alguma empresa de transportes; dois sujeitos sentados numa mesa escondida bem ao lado do freezer das cervejas, os tipicos sujeitos soturnos que não se podia olhar demais; o ciclista que a essa altura estava chegando no balcão e o balconista que, certamente, era o dono daquela espelunca. O cara parecia uma múmia. Muito velho, com dentes cavalares faltando e amarelados, muito magro, branco e com a pele toda rugosa. Seus cabelos eram ralos e brancos. Tinha-se a impressão de que ele poderia soltar pó a cada movimento. Cheguei faminto, entrei e a primeira coisa que procurei foi a estufa para saber o que é que se vendia para comer ali. Me deparei com uma coxinha triste e solitária, duas maias uma em cima da outra e um quibe tão solitário quanto a coxinha. Sentei num banco em frente ao balcão e o balconista estava falando com o ciclista:
-Você vai comprar?
-Vou.
Diante disso o velho balconista agaixou-se e pegou um embrulho de papel quadrado contendo muitas caixas de fósforo. Pegou uma das caixas e entregou ao ciclista. Este por sua vez abriu a caixa e ascendeu um fósforo tentando a todo custo ascender um cigarro que estava praticamente no quimba. Ao fazer isso pegou a caixa de fósforo e colocou em cima do balcão e saiu do estabelecimento. A fúria da múmia atrás do balcão foi gigantesca.
-Como é que você faz uma coisa dessas comigo?! Comigo! Você falou que ia comprar o fósforo!
O ciclista porém já estava do lado de fora do boteco, já montando em sua bicicleta. Olhou pra dentro e disse:
-Ce viaja demais maluco!
O velho ficou mais furioso ainda, saiu de trás do balcão e xingou abertamente o ciclista.
-Seu filho de uma puta! Sua cobra! Como você faz isso comigo!
E virando-se para mim perguntou:
-Você viu não é? Você viu o que aquele desgraçado fez!
-Sim, gastou um fósforo...
-Exatamente! Desgraçado, disse que ia comprar uma caixa!
Aquilo era demais para mim. Mas a fome estava me apertando. Pedi logo uma maia e um refigerante pequeno. O velho ao ouvir a palavra refrigerante deu uma risada e falou entre dentes balançando a cabeça negativamente "refrigerante, tsc". Pegou a maia com um pegador engordurado e colocou num microondas escondido atras de uma pilastra.
-Desgraçado, disse que ia comprar, desgraçado!
Repetia isso consigo mesmo. O pessoal que ali estava nem deu moral para aquilo tudo. Os dois rapazes soturnos continuavam a beber sua cerveja e a falar baixo um com o outro; o cara vestindo o uniforme fixara sua atenção na pequena televisão pendurada na parede em frente ao balcão. O programa, é claro, era esportivo e falava a respeito do jogo do Corinthians e Grêmio. Soltei um suspiro e o velho me trouxe a guaraná e logo em seguida, depois de um apito do microondas, me trouxe a pequena maia esquentada. Na primeira mordida vi que ela estava seca, murcha e com um gosto horrivel de velharia. Deveria estar ali no minimo três dias. De qualquer maneira comi aquilo tudo. Paguei o velho que ainda balançava negativamente a cabeça por causa de um fósforo roubado. "Ele disse que ia comprar, você viu!", repetiu isso esperando alguma palavra de consolo de minha parte. Olhei bem para o velho. Ele não merecia um pingo de respeito. Ele estava transtornado por causa de um fósforo. Segurei minha mão para não socá-lo bem no meio da cara, só Deus sabe o quanto segurei. Sai de lá sem dizer nada, apenas um obrigado. Ele teve a cara de pau de ainda me abençoar com um "vai com Deus". Aquilo foi demais pra mim. Voltei e me virei, mas o velho estava conversando com o cara do uniforme:
-Você viu que filho da puta?
-Me traz outra cerveja.
-Um desgraçado desses me roubou, me roubou!
Fui tomado por uma misericórdia que beirava ao enjoo. Tive que sair dali e sem olhar para trás andei pelas ruas do centro da cidade, sentei-me num banco de praça e fiquei por ali imaginando se alguém iria ainda me aporrinhar e pedir aprovação pelas pequenas injustiças que o mundo poderia acometer e que seria terrível demais para o orgulho esquecer.


Felipe Ribeiro

sábado, 3 de outubro de 2009

Até findar o fenômeno.

É bom ver a batalha,
As forças em ação...
O fervilhar da vida..
O mistério todo se infiltrando no mundo.
Nas coisas, nos seres, em tudo.
Se infiltrando nos homens e em suas ações.
Ações constantemente ignoradas...
Assim como as suas consequências.
Gigantescas consequências.
Redes de acasos, de poder de decisão.
De alcance incalculável...
De morte, de vida, de atração.
Um poder jorrado nas ações, nas palavras...
Imperceptível.
Necessário porém...
Instável mas que consegue ser ordem.
Ou uma ilusão de ordem, uma falsa paz...
Em meio a batalha constante dos acasos e ocasos...
De sentidos, de valores, de conflitos, de paixões...
De terrores, de angustias, de aflições?
Quem pode medir o vento que deixa escapar do próprio assopro?
Até onde vão as palavras lançadas com ele?
Até onde os gestos podem alcançar?
Até quando, até como?
Até o porque se calar.


Felipe Ribeiro

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A onda.

Há pessoas que são como pedras jogadas em água parada e espelhada.
Chegam fazendo ondas enormes que desfiguram qualquer limpidez, qualquer claridade.
Qualquer certeza, qualquer vaidade.
Trazem consigo o caos, e com isso a graça.
Ao todo cinza da banalidade.
Ao entorno que deixou de refletir.
São expoentes da loucura, do tapa na cara.
Da falácia tão necessária.
Em tempos de certeza ingrata.
De nobreza inútil.
De torpeza polida e fútil.
O mundo as criam como as árvores criam as folhas.
Mas só vemos essas pessoas quando se deixam cair.
Quando se deixam fazer notar.
Seja num sorriso, num insano olhar.
Destemperado pela felicidade pura, simples, burra.
São essas pessoas que te fazem flutuar.
Que temperam a vida com o despudor.
E com isso te faz sonhar.
Sonhar com outras possibilidades.
Libertar da mesma falsidade.
Assombrar com a verdade.
Pura e ingenua verdade.
Essa tão presente necessidade.
Dos corações mais aflitos por paz.

Felipe Ribeiro

domingo, 20 de setembro de 2009

Quando.

Como de costume eu deixo morrer certas emoções antes mesmo de elas nascerem.
Não costumo ver a graça do todo, conforme se apresenta, no momento mais apropriado.
Sempre é tarde demais, ou cedo demais.
O momento é tudo.
O momento é tudo.
É importante ressaltar o quando, mais do que o como, mais do que o porque.
É no quando que se agride com mais ou menos força.
É no quando que se traça o destino.
É no quando que se caminha, que se finda o compromisso.
E eu não sei lidar com o quando.
O meu como com o quando não é nada senão um talvez.
Um tardio talvez.
Ou um sempre quem sabe.
E quem sabe quando meu quando virá oportuno?
Talvez quando eu possuir a vontade de poder ser quando quiser.
Ou a vontade de quando quiser ser.
É certo porém que o quando é ocasionado, muitas vezes, ao acaso.
E que ao acaso é que vemos quando o quando chega.
É certo também que quando se esta atento nada escapa.
E quando se sabe o que quer a atenção se foca.
E quando se foca prende.
E quando prende liberta.
É quando o tal quando acontece.


Felipe Ribeiro

sábado, 5 de setembro de 2009

Desfibrilador

Ele fixou seu olhar no bule de café que estava a sua frente no fogão. A cozinha estava fria, o silêncio daquela manhã chuvosa aumentava a sensação de solidão daquele sujeito que ainda estava com sono, de cueca, mau hálito, cabelo bagunçado, cara amassada e uma falta de humor para com qualquer coisa. O que ele esperava de um sábado? A casa vazia, a rua vazia, somente o barulho da chuva e o vento frio vindo da porta aberta que dava para o quintal. Tudo estava estranhamente calmo. O café esquentando, a louça para lavar, o chão gorduroso, a gata dormindo no sofá, o cachorro dormindo no quintal... Qual era o sentido daquilo tudo? Hábito? O nada as vezes tomava conta daquele sujeito. E nada adiantava ele simplesmente não sabia, não sentia... Estava no automático. Tomou seu café muito doce engolindo devagar. E a cada golada era como se não existisse. Era isso. Ele fixou sua atenção naquilo tudo e não sentiu. Pensou estar sonhando mas o frio do vento e o quente do café lhe deram outra expectativa. Ele enfim respirou fundo, tratou de tomar um banho, escovar os dentes, se tornar mais salutar, mais limpo e quem sabe mais digno. Em vão. Colocou uma roupa, algo mais quente, uma blusa, uma calça, meias e sapatos... E nada. Olhou para o telefone, pensou em ligar para alguém mas ninguém veio a sua mente. Foi até seu quarto, alcançou uma caneta e um caderno e pensou em escrever alguma coisa. E nada lhe veio também. Estava sufocado pelo tédio. Pensou em chegar segunda feira para recomeçar a trabalhar, mas a idéia surgiu como um golpe de martelo no dedo mindinho. Estava se desesperando. pensou em todas as mulheres com quem ele já havia saido, pensou em ligar para uma ou duas, mas a idéia lhe veio como outra martelada. Pensou em fazer alguma coisa, qualquer coisa, mas no fim decidiu-se por esperar, talvez algo aconteceria se ele ficasse parado. Ligou a televisão mas tudo que ali se apresentava não fazia o menor sentido.. Imagens, vozes, músicas... Tudo se misturou com tal violência que ele teve que desligar o aparelho. A chuva não cessava. Ele saiu de casa, tomou um pouco de chuva e vento mas nem aquilo lhe serviu. Não há nada pior do que não sentir, do que não valorizar, do que não significar, do que não sonhar, do que não amar, do que não querer... Ele estava imerso numa areia movediça, quanto mais queria sair mais ficava preso, parado, sufocado. Ele sabia que tinha tudo o que precisava, tudo estava ali na sua frente, ainda que sujo, pouco e ruim, mas tudo estava ali clamando para ser usado, desejado, vivido, experimentado. Ele sabia disso, mas não sabia como acessar a graça daquilo tudo. Foi para o passado na velocidade do pensamento buscar com desespero tudo aquilo que lhe fez feliz, triste, arrasado e glorioso... Voltou com um certo gosto de esperança na boca, com um certo brilho de remorso no olhar, com um certo modo de novo no caminhar... Tudo se misturou àquele nada e logo ele teve a sensação de respirar como antes respirava. Logo percebeu que um dia ele foi um fracasso, um dia ele foi um sucesso, um dia ele foi amado, um dia ele amou, um dia ele foi odiado, um dia ele odiou, um dia ele foi esperto, um dia ele foi ingênuo, um dia ele foi humilde, um dia ele foi orgulhoso, um dia ele foi egoista, um dia ele foi caridoso, um dia ele foi cego e um dia ele viu mais que os outros todos. Enfim ele buscou motivar a sua engrenagem enferrujada, borrifou um pouco de confiança, um pouco de coragem e um pouco de curiosidade e enfim começou a sair da grande imobilidade para enfim tentar. Não importava para ele o que estava em jogo e o seu fim... Não importava o resultado, pois ele não partia de nenhuma premissa... O que importava para aquele sujeito era ser atingido.

Felipe Ribeiro