Ser tímido é uma arte. Se nasce com essa áurea e ao passar do tempo ela só tende a se fortalecer. Ser tímido é saber fugir constantemente da própria Razão que, inexoravelmente, te atormenta com o simples fato do bom senso existir. Para um tímido isso de bom senso é tão pesado quanto uma bola de aço amarrada ao pescoço, tão insuportável quanto uma atmosfera fétida. Ser tímido é de fato uma arte, porque ser tímido é saber lidar constantemente com inspirações que lhe surgem como um raio e que te dizem para entrar em ação... As pessoas ditas normais tem isso como um movimento natural, os tímidos não: Esperam até o momento do limite entre o certo e o certo para escolherem de fato entre o certo e o certo... Algumas vezes erram porque fogem simplesmente do que é mais certo, tamanha é a sua inclinação para com o hábito de perscrutar tudo e todos detalhadamente. São as pessoas também mais sensíveis, mais vulneráveis ao vento da desconfiança... Geralmente não aguentam mentiras, mas são os que sabem melhor fingir a sua verdadeira natureza. E fingem não por malícia mas antes por uma auto-preservação natural que faz com que se fechem para todos. Geralmente são pessoas boas, se algum tímido for uma má pessoa é porque alguém fez com que ele se transformasse nisso e daí se torna a pessoa mais perigosa de todas. Quando dois timidos resolvem querer alguma coisa juntos o que se pode observar é um verdadeiro festival de patinação, qualquer erro de calculo é o suficiente para desequilibrar e para travar ambas as partes. E esse cálculo não é um cálculo frio de interesse necessariamente econômico onde cada um observa pura e simplesmente as vantagens que tem a oferecer um ao outro... É um cálculo baseado na quentura da alma, dos rápidos e ousados olhares um para com o outro e que já são o suficiente para ruborizar a ambos, é o sorriso tirado de um a custa de muito sacrificio e que é comemorado no íntimo como a maior vitória de todas... É um interesse mútuo porque o tímido não se interessa apenas em se mostrar (aos poucos) como é de fato, mas antes ele analisa se é mesmo compensatório para o outro fazer com que ele se mostre para o outro... São criaturas compassivas, são criaturas que se apaixonam rapidamente e que não demonstram de jeito nenhum o enorme entusiasmo que a simples presença do outro pode lhe causar. São criaturas, enfim, que acompanham de longe tudo aquilo que um dia poderão ser de perto, que sonham de fato com tudo aquilo que de fato podem ser mas não tem a menor convicção de que podem ser de fato. São humildes no fim das contas, mas não consigo mesmas, porque todas as suas cobranças recaem apenas e tão somente nelas mesmas o que não é pouco porque de fato se há alguém que sabe cobrar (ao menos de si mesmo) são os tímidos. E quanto mais se cobram das duas uma: ou mais se enchem de coragem e arriscam um pouco (o que já representa quase tudo para um tímido)ou simplesmente não arriscam e fogem (o que é a coisa mais fácil para um tímido), o que já é em si mesmo correr outro risco, o de se arrepender por isso. A vida de um tímido é correr esses dois riscos o tempo todo... Na verdade todas as pessoas correm esses riscos, todos os dias da vida, mas para um tímido a coisa toda toma proporções gigantescas. E, para finalizar, quero deixar claro aqui que as pessoas tímidas têm laços duradouros com as poucas (e sinceras) amizades que fazem, mas se duram é porque são temperados com a sinceridade com que só um timido, que deixou de alguma maneira de o ser, pode demonstrar.
Felipe Ribeiro
terça-feira, 1 de junho de 2010
sábado, 22 de maio de 2010
Da sorte.
Eis a fera.
Domada pelo seu indomínio.
Diante dela a bela.
A prova de seu sacrifício.
Sacrifício esse que lhe confere amor,
Sacrificio esse que lhe confere terror,
Sacrificio esse que lhe confere calor,
O calor da paz.
Aquela tão buscada e sonhada fonte,
Onde só e somente só não o faz,
Onde enfim há a morte,
Onde enfim se encerra sua sorte,
Onde enfim encontra sua ponte,
Que o liga ai ao tudo o mais.
É nesse tudo que está sua melhoria.
É nesse tudo que está a sua agonia.
É nesse tudo que está a sua nova genealogia.
O seu renascimento.
O seu novo canto.
O seu novo alento.
O seu novo pranto.
O seu novo sofrimento.
Que por ser justamente novo é mais doce.
Mais forte, mais encantador.
Que por ser justamente mais encantador é mais torpe.
Mais frio, mais destruidor.
E é o ciclo da fera que se encerra com a sorte.
Com o simples encontro com a beleza e a timidez.
A timidez que o revolta, sufoca, engolfa.
Porque ela domina aquele que nasceu para ser indomável.
Aquele que nasceu para amar seus pecados.
Com o furor do bruto
Com o furor do desalmado, do afogado.
Com o furor do ignorante
Com o furor do ódio e seu fruto
O escalpe da esperança, da manseitude, da paz abundante.
Que abunda e deixa transbordar aquilo que nunca foi.
Aquilo que nunca pôde ser.
E que sendo dói.
Morre, empaca.
Destrói e afasta.
Tudo o que sempre foi do resto que lhe sobra.
Tudo o que sempre foi do resto de sua máscara.
Tudo o que nunca tocou com aquilo que agora lhe toca.
Éis a morte, eis a sorte, eis a graça!
A bela ali quieta agora abraça e ampara
A fera enfim conquistada.
Felipe Ribeiro.
Domada pelo seu indomínio.
Diante dela a bela.
A prova de seu sacrifício.
Sacrifício esse que lhe confere amor,
Sacrificio esse que lhe confere terror,
Sacrificio esse que lhe confere calor,
O calor da paz.
Aquela tão buscada e sonhada fonte,
Onde só e somente só não o faz,
Onde enfim há a morte,
Onde enfim se encerra sua sorte,
Onde enfim encontra sua ponte,
Que o liga ai ao tudo o mais.
É nesse tudo que está sua melhoria.
É nesse tudo que está a sua agonia.
É nesse tudo que está a sua nova genealogia.
O seu renascimento.
O seu novo canto.
O seu novo alento.
O seu novo pranto.
O seu novo sofrimento.
Que por ser justamente novo é mais doce.
Mais forte, mais encantador.
Que por ser justamente mais encantador é mais torpe.
Mais frio, mais destruidor.
E é o ciclo da fera que se encerra com a sorte.
Com o simples encontro com a beleza e a timidez.
A timidez que o revolta, sufoca, engolfa.
Porque ela domina aquele que nasceu para ser indomável.
Aquele que nasceu para amar seus pecados.
Com o furor do bruto
Com o furor do desalmado, do afogado.
Com o furor do ignorante
Com o furor do ódio e seu fruto
O escalpe da esperança, da manseitude, da paz abundante.
Que abunda e deixa transbordar aquilo que nunca foi.
Aquilo que nunca pôde ser.
E que sendo dói.
Morre, empaca.
Destrói e afasta.
Tudo o que sempre foi do resto que lhe sobra.
Tudo o que sempre foi do resto de sua máscara.
Tudo o que nunca tocou com aquilo que agora lhe toca.
Éis a morte, eis a sorte, eis a graça!
A bela ali quieta agora abraça e ampara
A fera enfim conquistada.
Felipe Ribeiro.
sexta-feira, 26 de março de 2010
O bom e velho livro.
Ora muito bem, estava eu deitado na cama lendo um livro, senão me engano "O homem duplicado", de José Saramago, quando me deparei pela primeira vez com uma daquelas verdades universais que te arrebatam por alguns segundos e que te deixa sem fala, sem ar e completamente embasbacado. Essa verdade universal me apanhou de surpresa, sem querer, e se baseia numa coisa simples que até então eu não havia me tocado: Como um livro pode ser tão importante para mim! Essa verdade universal se demonstrou ser, afinal de contas, uma coisa muito particular, mas tudo bem, é a minha verdade universal e ninguém tasca! Bom, o raio que me atingiu a consciência aconteceu de madrugada, no meio de uma insônia brava e numa fase de minha vida em que o tédio era derrubado a golpes de "livradas". Eu sempre tive a companhia dos livros, sempre fui apaixonado por eles e para sempre, assim espero até durar minha vida, lerei um bom livro. E numa dessas observações a respeito das minhas leituras cheguei a conclusão simples de que um bom livro é aquele que te traz algum alento, aquele que te incomoda de certa maneira e que te absorve por completo, faz você fugir de si mesmo e se encarnar em outro personagem, em outro contexto, em outra situação, em outra vida enfim. Para tanto não é preciso que o escritor escreva bem, que saiba todas as regras gramaticais, mas simplesmente escreva com paixão, com sentimento, seja ele de qualquer espécie, seja triste, alegre, irado, mas que seja sincero, autentico e que nos faça acreditar a tal ponto que possamos sentir pena, alegria ou mesmo ira. É uma troca... O livro esta ali, a espera da fatalidade que só os vivos podem causar, mas quando há essa troca o livro surge como um sujeito vivo que interage e te faz mudar interiormente, te faz mover uma força oculta que nem você mesmo sabia existir em si. É por isso que talvez Voltaire uma vez disse, o que por acaso eu li em um livro que não me lembro o nome agora (mas o que importa esquecer-se do nome se o que você tira dele vai te acompanhar para sempre? É assim também com algumas pessoas...): "Um livro aberto é um cérebro que fala; fechado, um amigo que espera; esquecido, uma alma que perdoa; destruído, um coração que chora". Afinal de contas o livro é escrito por pessoas de carne, osso, sentimentos e intenções; pessoas que deixam ali sua marca, seu diagnóstico do mundo, de si e de tudo, para sempre até durar o interesse das outras pessoas, de uma pessoa que seja, contanto que tenha a bondade de doar a eternidade para quem escreveu.
Felipe Ribeiro
Felipe Ribeiro
domingo, 7 de março de 2010
O caçador de borboletas.
Eu me vejo como uma rede que dança pelo ar caçando borboletas. Quando tenho a sorte de apanhar alguma eu paro, observo bem suas asas e depois as liberto. As vezes as asas não estão abertas para se mostrarem, dai dou um leve cutucão para que elas se abram para que eu possa ver suas cores, suas individualidades, aquilo que as tornam únicas. Dai as solto, com a certeza plena de que nunca mais verei asas assim novamente. Isso me deixa triste por um tempo, mas logo a tristeza é substituida por uma nova onda de empolgação e a rede novamente dança pelo ar na esperança de ver novas asas, novas cores, novas formas que me marcam de uma maneira única a cada olhadela, a cada observação curiosa e cheia de esperança pela beleza que ali vai se mostrar. Nunca vi uma asa igual a outra, deveras sim parecidas, mas nunca igual. Isso faz com que eu me sinta como um colecionador de beleza, como um amante de coisas únicas... Mas quem não é? Essas asas, quando bem observadas, marcam por um tempo a minha vida. Enquanto isso a rede dança no ar, ao acaso, as vezes captura, as vezes nada tem. A maior parte do tempo ela esta vazia, voando pelo ar, em movimentos suaves, constantes, quase enfadonhos. Agora por exemplo essa rede acabou de soltar mais uma cujas asas eram de uma cor violeta, meio avermelhado... Ha asas com essas cores fortes, ha outras que são de uma coloração sem graça alguma, mas cujo desenho espanta de tão belo. Geralmente a coloração mais forte, mais viva, vem em pequenas asas que voam rapidamente, desajeitadas... As cores mais suaves são acompanhadas por asas maiores, mais bem desenhadas e com um voo lento. São mais fáceis de se capturar, porém são as mais dificeis de se soltar. O desenho unico fica encravado em sua mente e isso te deixa num estado de paixão que te faz querer empalhar a borboleta com as asas abertas e guarda-la dentro de uma caixa de vidro para se observar quando bem quiser. Nunca farei isso. Não há razão para se caçar se a finalidade é a morte e o troféu. Prefiro deixar a beleza viver, se espalhar, unicamente a sua maneira, unicamente. Vez por outra a rede se enche de borboletas, e fica dificil decidir qual é a melhor, a mais bela. Não existe isso de melhor quando de fato todas as asas são únicas.
Felipe Ribeiro
Felipe Ribeiro
quarta-feira, 3 de março de 2010
Da força nossa de cada dia.
Alguns dias atrás estava eu sentado na calçada, como não haveria de ser, depois de passar o dia todo tentando sem muito esforço ou comoção de minha parte arranjar um emprego por ai, quando me deparei com uma cena no minimo curiosa. Um menino de seus seis anos de idade estava acompanhado por um outro garotinho, talvez seu irmão mais novo sentados logo ali, perto de mim. Até ai tudo bem, mas o que me deixou mais curioso foi quando uma senhora passou por eles e deu um bombom ao menino mais velho. Este por sua vez agradeceu, e colocou a lingua para fora tentando abrir o bombom... Pensei comigo, porque é tão dificil abrir um bombom e logo obtive a resposta: O garotinho não tinha dedos. O que havia no lugar dos dedos eram apenas pequenas protuberancias com unhas, mas havia sim um polegar em cada mão ao menos, e isso ajudava o garoto. Ao final de 5 minutos de batalha ele consegue abrir o bombom, come a metade e dá a outra para o seu irmão mais novo. Foi uma cena no minimo estimulante para mim, que logo ficou corado de alguma vergonha por ter as mãos perfeitas e não cometer a muito tempo gesto tão nobre com elas como o fez aquele garotinho. Foi então que eu reparei que logo depois apareceu num portão a duas casas de distancia um outro menino que era um pouco mais velho. Ele perguntou com um grito o que o outro estava comendo e ele acabando de engolir disse num outro grito: - Bombom. O outro então pediu um bombom pra ele e este, com toda a inocencia, mostrou as mãos vazias que carregava apenas o papel do bombom. Foi então que começou o suplicio...
-Nossa, que isso na sua mão?
O menino, por sua vez, muito embaraçado escondeu as mãos nas costas e ficou tentando pensar numa resposta enquanto o outro continuava a perguntar: -Deixa eu ver!Como que ce faz isso? Deixa eu ver!
O menino então disse, depois de muita pressão: - É mágica!
-Mágica? Como que faz?
-É mágica! - Mostrou novamente as mãos.
-Humm... Como que faz pra elas voltarem ao normal?
Com essa pergunta ficou nitido no rosto do menino a derrota. Foi uma das cenas mais tristes que já presenciei nessa minha curta vida. O menino escondeu de novo as mãos nas costas e caminhou até o muro onde se encostou e ficou cabisbaixo. Seu irmão mais novo corria pela calçada, usando apenas uma fralda, e reparou no seu irmão quieto. O menino estava quase chorando enquanto o outro do portão continuava: - Faz ela ficar normal pra eu ver!
Então o menino mais novo correu para dentro de uma casa e chamou pela mãe. Esta apareceu logo depois e foi até o filho mais velho.
-Mãe... Como que eu faço pra minha mão ficar normal?
-Papai do céu quem fez elas assim...
-Porque que ele fez assim?
-Porque ele quis... E suas mãos são normais. Fala praquele menino que Papai do céu fez elas assim.
O menino foi até o outro que aguardava as mãos ficarem normais e disse que as mãos dele eram daquele jeito porque o tal do papai do céu quis assim.
-Papai do céu? Nossa... ahahahahahahha - Disse o outro menino.
O menino voltou para a mãe de cabeça baixa e mordendo os lábios inferiores segurando o choro mais que podia e entrou na casa. A mãe tentava consola-lo dizendo que ele era o melhor filho do mundo, o que eu não duvidaria por nada. Aquele menino sabia ser forte naquela idade, não derramara uma gota de seus olhos. Eu estava presenciando o nascimento de um grande ser humano no sentido moral do termo. Não tive pena do garoto, nem raiva do outro menino que ficou surpreso pelas mãos do outro. Eu tentei observar a consequencia daquela cena tanto pra um quanto pra outro. E reparei que o mundo vive moldando vencedores e perdedores, o mundo vive construindo e destruindo sentimentos, fortalecendo e enfraquecendo as misérias, permitindo superações fiéis e devastações duradouras...
Felipe Ribeiro
-Nossa, que isso na sua mão?
O menino, por sua vez, muito embaraçado escondeu as mãos nas costas e ficou tentando pensar numa resposta enquanto o outro continuava a perguntar: -Deixa eu ver!Como que ce faz isso? Deixa eu ver!
O menino então disse, depois de muita pressão: - É mágica!
-Mágica? Como que faz?
-É mágica! - Mostrou novamente as mãos.
-Humm... Como que faz pra elas voltarem ao normal?
Com essa pergunta ficou nitido no rosto do menino a derrota. Foi uma das cenas mais tristes que já presenciei nessa minha curta vida. O menino escondeu de novo as mãos nas costas e caminhou até o muro onde se encostou e ficou cabisbaixo. Seu irmão mais novo corria pela calçada, usando apenas uma fralda, e reparou no seu irmão quieto. O menino estava quase chorando enquanto o outro do portão continuava: - Faz ela ficar normal pra eu ver!
Então o menino mais novo correu para dentro de uma casa e chamou pela mãe. Esta apareceu logo depois e foi até o filho mais velho.
-Mãe... Como que eu faço pra minha mão ficar normal?
-Papai do céu quem fez elas assim...
-Porque que ele fez assim?
-Porque ele quis... E suas mãos são normais. Fala praquele menino que Papai do céu fez elas assim.
O menino foi até o outro que aguardava as mãos ficarem normais e disse que as mãos dele eram daquele jeito porque o tal do papai do céu quis assim.
-Papai do céu? Nossa... ahahahahahahha - Disse o outro menino.
O menino voltou para a mãe de cabeça baixa e mordendo os lábios inferiores segurando o choro mais que podia e entrou na casa. A mãe tentava consola-lo dizendo que ele era o melhor filho do mundo, o que eu não duvidaria por nada. Aquele menino sabia ser forte naquela idade, não derramara uma gota de seus olhos. Eu estava presenciando o nascimento de um grande ser humano no sentido moral do termo. Não tive pena do garoto, nem raiva do outro menino que ficou surpreso pelas mãos do outro. Eu tentei observar a consequencia daquela cena tanto pra um quanto pra outro. E reparei que o mundo vive moldando vencedores e perdedores, o mundo vive construindo e destruindo sentimentos, fortalecendo e enfraquecendo as misérias, permitindo superações fiéis e devastações duradouras...
Felipe Ribeiro
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Nem ontem, nem amanhã.
"Porque você não escreve heim? Não posso te ajudar, vai escrever!" Bom, estou aqui, obrigado pela ajuda! O que vale o escrever pra mim? Para que eu o uso? São perguntas que eu não tenho a minima condição de responder, talvez por preguiça de pensar a respeito disso ou sei lá o que. As pessoas não tem muito saco para ouvir o que eu falo, mas deveras parecem gostar mais do que escrevo, se é que lêem e não estão fingindo alguma coisa. Desculpem, não confio muito nas pessoas... E a culpa são delas mesmas, claro. Tenho ótimos amigos, pelo menos nisso fui afortunado, logo não preciso de muito mais pra me sustentar existencialmente, apesar de ser um tanto quanto complicado porque a vida pra mim é estranha, muito estranha mesmo. Já se perguntaram do que é feito a amizade? De que material é feito a tristeza, a felicidade, o amor? Alguns diriam que não tem matéria ai envolvida, então, o que seria? Emoção? E o que é a emoção? Impulsos eletromagneticos no cérebro e blablabla? Tudo então se resume ao cerebro? Alguns diriam que sim, eu como um bom desmiolado que sou diria que não. Há algo mais do que isso tudo que esta dentro da sua caxola, sinto que há. Sinto logo existo, não era assim que falavam? Não, acho que não. Mas a questão aqui é a seguinte: De que fibra são feitas as forças de que usamos e necessitamos para superar a dor? Acho que toda dor é um compromisso frustrado que criamos e mantemos com a gente mesmo. Isso já mostra um pouco a irracionalidade do ser humano. Claro, não falo da dor fisica, apesar de que algumas pessoas adoram levar chicotadas e serem pisadas na cabeça por uma bota de salto agulha de couro. Falo aqui daquela dor que impulsiona e ao mesmo tempo deixa a gente estacionado, o puta paradoxo que nos faz sentir vivo, simplesmente vivo e cheio de dor, apesar de jurarmos pra nós mesmos que estamos morrendo disso ou daquilo... Bobagem, estamos é muito vivos e isso dói porque a gente não está acostumado com tanta vida e com tanta vulnerabilidade. Estamos acostumados a nos proteger tanto que quando nos expomos dói. É como o olho que fica na escuridão e tem que ver a luz de uma vez. Repito a pergunta: De onde surge a força que usamos e necessitamos para superar a dor da vida, a dor da responsabilidade, do "e agora? é comigo mesmo?". É, é contigo mesmo. E agora? Agora? A pergunta já responde, pelo menos em parte, a resposta. É no agora, ao menos isso eu sei... é nos agoras, no agora de agora, no agora de daqui um pouco, no agora até a dor sumir, no agora de daqui alguns meses... Mas é urgente, sendo assim, porque não agora? A esperança as vezes é a ultima que morre mas com certeza é a primeira que respira, com isso a gente espera, espera, espera... Deixar a esperança morrer, em alguns casos, é a melhor coisa a se fazer para você mesmo, porque quando a esperança é caduca a gente se agarra ao nada e cai, só cai, sem apoio. Ai sim a gente se levanta com as próprias pernas, o que para uns significa uma vida inteira, para outros uma noite de bebedeira, para outros porém significa uma grande carga e uma grande máscara de superação, vivem na eterna aparencia e no eterno jogo do auto engano. Estamos sempre aguardando novas esperanças, fazendo novas surgirem, querendo novas a se abrirem no horizonte cinzento, mantendo as mesmas com mais confiança ainda... Somos seres esperançosos, cruéis com a gente mesmo, dignos de pena e dignos dos mais belos poemas...
Felipe Ribeiro
Felipe Ribeiro
sábado, 16 de janeiro de 2010
Reciclagem.
Salve, salve velha dor...
Por onde andava?
Ha quanto tempo não sentia teu calor!
Ha quanto tempo eu não a esperava?
Salve, salve bela!
Onde as lágrimas já enfim significam algo
Onde a carência enfim impera
Onde o tempo é um grande salto.
Tudo passa na velocidade da ansiedade
Tudo é saudade
Tudo é miragem
Tudo é uma incontrolável vontade...
Há e como essa vontade é insaciável
Como esse querer é ilimitado
E como a vida se torna tão apertada
Tão desprezada por aquilo que te aparta
De si mesmo.
Aquilo que ainda não é
Mas, que mesmo assim sendo, é, e como é!
Salve doença que não quero cura!
Salve paixão que me afunda!
Salve, dor, salve!
Por que é dela que se é feita a vida
Em todas as suas feridas
Abertas ou fechadas
Esquecidas ou relembradas
É disso que é feita as mágoas
E é disso que se é feito a superação
Aquilo mesmo que te dá o direito de seguir em frente
A sua oração
O seu amor descente...
Complascente e paciente
Firme, convicto que tudo dará certo
Mesmo que não acredite
Jurando martírio eterno.
Felipe Ribeiro
Por onde andava?
Ha quanto tempo não sentia teu calor!
Ha quanto tempo eu não a esperava?
Salve, salve bela!
Onde as lágrimas já enfim significam algo
Onde a carência enfim impera
Onde o tempo é um grande salto.
Tudo passa na velocidade da ansiedade
Tudo é saudade
Tudo é miragem
Tudo é uma incontrolável vontade...
Há e como essa vontade é insaciável
Como esse querer é ilimitado
E como a vida se torna tão apertada
Tão desprezada por aquilo que te aparta
De si mesmo.
Aquilo que ainda não é
Mas, que mesmo assim sendo, é, e como é!
Salve doença que não quero cura!
Salve paixão que me afunda!
Salve, dor, salve!
Por que é dela que se é feita a vida
Em todas as suas feridas
Abertas ou fechadas
Esquecidas ou relembradas
É disso que é feita as mágoas
E é disso que se é feito a superação
Aquilo mesmo que te dá o direito de seguir em frente
A sua oração
O seu amor descente...
Complascente e paciente
Firme, convicto que tudo dará certo
Mesmo que não acredite
Jurando martírio eterno.
Felipe Ribeiro
domingo, 3 de janeiro de 2010
Silvana.
Há alguns anos, quando eu andava mais sozinho do que ando hoje, entrei num desses bares grandes onde a primeira coisa que se consegue observar quando se entra em um lugar desses é gente, muita gente. Depois o barulho, muito barulho. Indistinguíveis sons de bandas tentando tocar bem e de pessoas querendo falar competindo com o som alto. Fui até o longo balcão e pedi um uísque com gelo. Naquela época eu tinha alguma coisa que se pode dizer ser bom gosto, ou bom senso, não me lembro, faz tempo que perdi isso. Fiquei na minha, não queria papo com ninguém. O barman, ou seja lá como chamam o cara que te serve as bebidas nestes lugares, me serve o scotch. Beberico um pouco e fico a observar as pessoas. De repente eis que eu vejo um primo meu. O típico rapaz que no auge de sua juventude não consegue controlar a sua empolgação e o seu tom de voz, o que acaba transformando-o no projeto perfeito do cara chato que não se manca. Fingi não vê-lo e me virei e fui saindo devagar com meu copo de uísque em mãos. Foi quando escutei o que não queria escutar. Em meio a centenas de pessoas por que é que ele me viu? Cristo, Buda, Krishina ou seja lá quem for, por que?!
-Primo! – Ouvi aquilo e pensei em seguir em frente e nem dar moral. Foi o que eu fiz, mas não adiantou muito. Senti sua mão pesada de jovem cheio de vida e empolgação que descobriu o que é uma xoxota não tinha nem dois meses bater nos meus ombros.
-Opa, tudo bom cara?
-E aê! – Me abraçou de lado. Caiu, como não poderia deixar de ser, um pouco do meu uísque na minha camisa. – Então, que que você ta fazendo aê sentado sozinho? Não ta vendo o tanto de gata aqui não?
-É, pois é...
-Então, eu to com uns colegas meus aê, cara já fiquei com umas três mulheres e aqui ta bom demais... – Não escutei mais nada depois disso. Liguei meu foda-se e acionei o meu vocabulário típico de quem finge escutar mas que está pouco se lixando. Soltei meus “é sério?”, “nossa!”, “que legal heim”, e coisas assim. De repente ele me acorda do meu torpor causado pela sua felicidade fútil e barulhenta batendo no meu ombro com força. Caiu mais um pouco do uísque. O que que há com a juventude de hoje, ela nunca ouviu falar na palavra “classe”?
-Mas primo, eu quero mesmo é pegar aquela morena ali! – E me aponta para uma moça que estava sentada no outro canto do balcão. Ela estava acompanhada por outra moça loira, muito bonita por sinal. Sentei no banco do balcão e bebi mais um pouco.
-Então primo, que que ce acha? Eu pego a morena e você fica com a loirinha, hã, hã?
-Vai na frente. –Realmente tenho preguiça para com pessoas animadas demais.
-Beleza! Eu falo de você para a loira então!
-Isso, vai lá, me ajuda.
-Pode deixar primo! – Ele não entendeu o “me ajuda”. Também pudera, o cara era novo, simples de coração... Mas muito chato, o que superava todas as suas qualidades. Não posso deixar de constatar que sim foi um alivio quando ele saiu. Então eu resolvi observar a situação. Por incrível que pareça meu primo conseguiu sair para dançar com a morena. O cara tinha jeito para com as mulheres... Talvez porque mulher não seja tão complicada assim, afinal. Enfim, a loira olhava para os dois. Depois ela voltou seu olhar para a batida que estava tomando pelo canudinho. Então ela levantou os grandes olhos azuis diretamente para mim. Joga os cabelos longos e loiros para o lado e sorri. Eu aceno com a cabeça e volto minha atenção ao meu uísque, ou o que sobrou dele depois do terremoto de testosterona que era meu primo. Resolvo por fim flertar com a moça voltando meus olhos novamente em direção a ela, porém não a encontrei mais ali. Procurei que nem uma toupeira mais um pouco e escutei bem do meu lado uma voz suave e risonha:
-Estou aqui Felipe. – Me viro e ela estava sentada no banco ao meu lado. Ela realmente era bonita e ao mesmo tempo segura de si, firme... Sim, firme e serena.
-Opa. – Disse eu em meio a um sorriso amarelo.
-Então, você é primo daquele cara?
-Não tenho culpa disso.
-E eu não tenho culpa de ter uma amiga daquela.
-É... – Este era um daqueles típicos momentos em que eu não sabia o que dizer. Não tinha a versatilidade dos garanhões. Acabei meu uísque e fiquei brincando com o copo.
-Posso te pagar outra dose Felipe?
-Se você quiser... –Ela sorriu e pediu outro scotch pra mim. Então me bateu uma idéia simples que até aquele momento eu havia ignorado: Qual o nome dela mesmo?
-Desculpa moça, mas qual teu nome mesmo?
-Silvana.
-Humm... Posso te chamar de serena?
-Se você quiser.
-Beleza então. – O drinque chegou e eu beberiquei de novo. Ela me olhava com os olhos de uma pessoa que estava completamente fascinada com o que via. Fiquei um pouco inibido beirando à desconfiança e disse:
-Seja lá o que o meu primo disse de mim, acredite, eu não sou isso tudo.
-Na verdade seu primo não falou muita coisa de você, só seu nome e que você estava sozinho.
-Então... – Ela sorriu e me disse:
-Você deve estar se perguntando, por quê?
-Confesso que sim.
-Digamos que te achei interessante. Você parece que quer sumir, gosto disso.
-Por quê?
-Quem não gosta de aparecer ou tem muito a esconder e não quer compartilhar com os outros ou se sente inibido com as pessoas, e eu acho isso um charme.
-É, deve ser. – Beberiquei de novo o uísque.
-Você é indiferente, metido! Se sente superior ou é só timidez?
-Nem um nem outro. Só gosto de ficar na minha.
-Então... Estou te incomodando?
-Não, você me parece legal.
-Sou sim! Você vai ver! – Nisso ela sorriu, virou e se escorou no balcão. Ela usava um vestido florido que lhe caia muito bem. Olhava o pessoal fixamente. Então ela se vira pra mim e pergunta: - Você não dança?
Me virei e vi o pessoal dançando na pista. A música eletrônica, ritmo rápido e constante, as luzes piscando, o pessoal olhando para o chão balançando as cabeças e os braços, alguns de olhos fechados com a cabeça e os braços erguidos para cima.
-Isso é dançar? – Retruquei.
-É uma coisa interna Felipe... É tipo uma pulsação que a gente sente, entende?
-Não.
Ela sorri me olhando de baixo para cima, para e olha fixamente nos meus olhos. Puta que pariu, poderia fazer tudo por ela naquele instante em que seus olhos cruzaram como uma bala com os meus. As mulheres quando querem alguma coisa de um homem ordenam com os olhos, mas uma ordem irrevogavelmente aceita pelo homem e seu instinto.
-Vamos dançar?
-Prefiro ficar conversando com você aqui, se não se importa.
-Claro! Mas...
-Mas?
-Mas você nem ta falando nada, fala aí!
-Não tenho muito que falar, o que é que eu poderia falar? – Beberiquei mais um pouco do uísque.
-Sei lá, qualquer coisa. O que sente, o que sabe?
-Não sinto e não sei de nada ultimamente. Quer dizer... só disso que sei ou sinto, porra, sei lá.
-Olha ai! Já disse alguma coisa!
-Tá legal então, sua vez agora, porque é que você não fala nada?
-Por que te observo.
-É, isso eu to vendo, mas o que você procura em mim?
-O que aparecer, ué!
-Que merda heim... – Ela gargalhou. – E o que é que apareceu pra você até agora?
-Um ser... Autentico!
-Heim?
-Você é espontâneo, seus diálogos são fluidos, não tem muitos crivos...
-Crivos no caso seria papo furado?
-Uma artificialidade imposta, conforme as leis da etiqueta e da moral e dos bons costumes...
-E porque você acha que ela tem que se impor?
-Talvez porque não seja tão inerente ao sujeito.
Ela me olhava de um jeito estranho. Desconfiei que estivesse sendo alvo de uma experiência cientifica, ou seja lá o que for, só sei que estava tendo essa impressão. Então ela me solta a seguinte frase: -O que você acha do sujeito hoje em dia? – Porra, que tipo de pergunta era aquela? Eu não achava nada, respondi apenas tendo por base tudo o que eu estava sentindo naquele momento.
-Eu acho que a maioria das pessoas estão esgotadas... Elas mesmas se esgotam pela pressão insana que elas mesmas se impõem... Acho que essa pressão é perversa porque inculca na maioria das pessoas uma culpa que elas não tinham o direito de sentir... Acho que isso é culpa dessa lógica absurda da eficácia, se você não se preparar constantemente você não sobrevive, isso pra mim é uma guerra suja porque o mundo te prepara apenas para ficar preparado para o que eles ditam, o que o mundo determina, você nunca esta preparado para você mesmo e com isso você esquece de se formar por si mesmo... Sei lá, acho que o que existe hoje de fato é a vontade de ter vontade própria, entendeu?
-Sim! Mas de onde vem essa historia de vontade?
-Vem da humilhação.
-Hã? Como assim?
-A todo momento nos humilhamos. Com isso matamos a golpes de pancadas a nossa própria vontade. Não fazemos por vontade própria determinadas coisas, fazemos porque é determinado que façamos, caso queiramos sobreviver “dignamente”. Compreende? Somos assediados moralmente a todo instante. E o pior de tudo é que nos resignamos porque naturalizamos o mundo dessa forma, mas esquecemos que somos nós quem fazemos ele ser assim.
-Entendo. E o mundo se acomoda, presencia barbáries e fica imune e mudo.
-De que mundo estamos falando afinal de contas?
-Acho que é aquilo que imaginamos como mundo, que achamos que esta além de nossos pensamentos... O que conseguimos imaginar, o não imaginável está fora desse mundico... Não é o mundo das possibilidades, é só o restrito, entende?
-Sei... A questão é: Achamos que de fato pensamos ou pensamos de fato? Pode uma cultura desenvolver um mecanismo de abstração tão violento que de fato nos inflija a pensar que pensamos ao invés do livre exercício de pensar por conta própria?
-Acho que pensamos sim Felipe... Pensamos sim, de fato, mas de uma maneira, eu diria, bitolada...
-Sabe moça – bebi mais um pouco do uísque – o homem de hoje esta engajado em seus projetos porque ele enxerga a vida não como uma possibilidade, mas antes vê a vida com a angustia daquele que joga... e que joga pra vencer.
-Entendi.
-E se tudo é um jogo, não há um compromisso para com os outros jogadores, já que esses são vistos como concorrentes e adversários.
-Mas haveria vencedores? Perdedores? Não sabem que pode haver uma filosofia ganha-ganha?
-Acho que... Acho que haveria aqueles que ganham rodadas... Mas tudo depende de como a pessoa vê a sua vida...
-Não sei... Não estou ciente se jogo ou não... Às vezes devo jogar, para que, eu ainda não sei... Garçom me vê outra batida, por favor...
-O bom jogador é aquele que sabe parar para ter controle do jogo, e não o contrário. Há de se ter a tal da serenidade, temos que ter consciência do que somos... A maioria dos seres humanos não tem consciência do que são, ou melhor, da sua situação... Situação de dependência.
-Sim, dependência total! A maioria da humanidade ainda quer ter controle sobre a natureza e o mundo, não dão trégua.
-Aqui sua batida moça. – disse o garçom.
-Obrigada. – chupou um pouco no canudinho e continuou – sabe, eu estudei a teoria do demônio de Laplace e as pessoas ainda pensam dessa maneira, pelo menos os latino americanos – disse-me olhando para a pista de dança.
-No fundo é isso que todos querem: Poder. O poder nos garante de certa maneira e nos faz esquecer da nossa situação fundamental de dependência. Por isso acredito que os humildes estão a salvo de si mesmos.
-Os humildes? Agora não entendi.
-É porra. Humildes são aqueles que se conhecem e sabem pelo que lutar; os coerentes e os que não se enganam sobre si mesmos. Tendemos a pensar que os humildes são passivos, isso pra mim é ressonância da racionalidade competitiva. Em uma palavra serena, os humildes são os sinceros e honestos... Isso não quer dizer necessariamente que eles são bons ou maus, depende daqueles que são afetados pelo tapa da realidade sobre si mesmos, entendeu?
-Entendi.
-Qual das mascaras queremos usar?
-A da mesquinhez! – Sugou mais um pouco da batida do canudinho.
-Sabe o que me mata? O pedantismo. Porra pensa comigo, porque não respeitar para ser respeitado? Porque não considerar alguém como um elemento que carrega uma gama de inteligência e capacidade? E história... Experiência de vida, visões de mundo...
-Por que não se enxergam as possibilidades...
-É, pode ser. Estamos cegos pelo preconceito que carregamos e que alimentamos em nós mesmos quando achamos que somos mais só porque temos mais estudo, mais dinheiro, mais beleza. Somos extremamente quantitativistas e nem percebemos.
-É uma analise boa, mas você não acha que ela é possibilitada pelo momento de mutação do mundo? Eu acredito que o mundo vai girar ou hecatombe ou um planeta melhor! Porra, há tanto assassinato por ai, vamos todos morrer?
-Claro que vamos morrer, caralho! Não somos imortais, pô!
-Desculpe...
Nesse ponto eu percebi a cagada, fiquei nervoso não sei por que, talvez por estar a vontade demais com ela e daí eu me permitir explodir um pouco... Tentei consertar.
-Olha moça... Eu não sei de nada. Só sei que estou cansado... Sou um paralitico que se apóia em muletas de pensamentos, mais um que não anda com as próprias pernas...
-E quem não é? Olha, adorei construir esse dialogo com você!
-E o que é que você construiu?
-Ué, o dialogo!- Chupou de novo o canudinho.
-Pensei que você iria dizer algo do tipo... algo inacabado e que um dia hei de destruir, ou coisa parecida...
-Errou, não sou tão previsível!
-É, ta... O que você faz da vida moça?
-Faço psicologia, formo esse ano. E você?
-Faço história.
-Interessante!
-É... – Foi então que meu instinto me deu um chute no saco me lembrando do que um homem faz com uma mulher...
-Escuta – continuei- ta afim de ficar comigo?
-Nem um pouco.
Não contive a gargalhada.
-Tudo bem então... – beberiquei mais um pouco do uísque. Acabou o uísque e o assunto.
-Você desiste fácil assim?
-É...
Nisso chegou meu primo acompanhado pela amiga da Silvana. Ela chamou a Silvana para um canto e ficaram conversando e rindo. Meu primo sem classe e cheio de hormônio masculino me bate no ombro com sua mão pesada de euforismo.
-Primo! Que mulher!
-Ah é? – Sim, liguei meu foda-se. Na verdade já o havia ligado quando ele estava a caminho de torrar o meu saco.
-É! Demais! Ela valeu por cinco!
Foi como se eu levasse um soco no estomago. Me deu vontade de quebrar o copo de uísque na cara do desgraçado depois que ele soltou essa. Novamente sinto um tapa pesado no ombro.
-E aê primo, pegou a loirinha?
-Não.
-Porra, perae! Vocês ficaram só conversando? – Para o meu primo mulher não tinha cérebro... Só um buraco para se enfiar o pau.
-Pois é... Ela tem um papo legal...
-Tá fraco heim primo, ta fraco!
-É pois é...
A Silvana e sua amiga vieram até nos de novo. Disseram que tinham que ir embora porque estava tarde e aquelas coisas todas. Me despedi com um aceno de cabeça para a Silvana. Ela veio, me abraçou e me beijou a bochecha. Percebi que meu primo estava agarrando e beijando na boca a amiga da Silvana. Ele prometeu ligar pra ela. Elas foram embora. Sim, a Silvana não pagou meu uísque. Meu primo voltou à pista para, segundo o que ele mesmo me disse, “caçar outra gata”. Paguei minhas bebidas e voltei para casa. Novamente a pé, e novamente tive insônia.
Felipe Ribeiro
-Primo! – Ouvi aquilo e pensei em seguir em frente e nem dar moral. Foi o que eu fiz, mas não adiantou muito. Senti sua mão pesada de jovem cheio de vida e empolgação que descobriu o que é uma xoxota não tinha nem dois meses bater nos meus ombros.
-Opa, tudo bom cara?
-E aê! – Me abraçou de lado. Caiu, como não poderia deixar de ser, um pouco do meu uísque na minha camisa. – Então, que que você ta fazendo aê sentado sozinho? Não ta vendo o tanto de gata aqui não?
-É, pois é...
-Então, eu to com uns colegas meus aê, cara já fiquei com umas três mulheres e aqui ta bom demais... – Não escutei mais nada depois disso. Liguei meu foda-se e acionei o meu vocabulário típico de quem finge escutar mas que está pouco se lixando. Soltei meus “é sério?”, “nossa!”, “que legal heim”, e coisas assim. De repente ele me acorda do meu torpor causado pela sua felicidade fútil e barulhenta batendo no meu ombro com força. Caiu mais um pouco do uísque. O que que há com a juventude de hoje, ela nunca ouviu falar na palavra “classe”?
-Mas primo, eu quero mesmo é pegar aquela morena ali! – E me aponta para uma moça que estava sentada no outro canto do balcão. Ela estava acompanhada por outra moça loira, muito bonita por sinal. Sentei no banco do balcão e bebi mais um pouco.
-Então primo, que que ce acha? Eu pego a morena e você fica com a loirinha, hã, hã?
-Vai na frente. –Realmente tenho preguiça para com pessoas animadas demais.
-Beleza! Eu falo de você para a loira então!
-Isso, vai lá, me ajuda.
-Pode deixar primo! – Ele não entendeu o “me ajuda”. Também pudera, o cara era novo, simples de coração... Mas muito chato, o que superava todas as suas qualidades. Não posso deixar de constatar que sim foi um alivio quando ele saiu. Então eu resolvi observar a situação. Por incrível que pareça meu primo conseguiu sair para dançar com a morena. O cara tinha jeito para com as mulheres... Talvez porque mulher não seja tão complicada assim, afinal. Enfim, a loira olhava para os dois. Depois ela voltou seu olhar para a batida que estava tomando pelo canudinho. Então ela levantou os grandes olhos azuis diretamente para mim. Joga os cabelos longos e loiros para o lado e sorri. Eu aceno com a cabeça e volto minha atenção ao meu uísque, ou o que sobrou dele depois do terremoto de testosterona que era meu primo. Resolvo por fim flertar com a moça voltando meus olhos novamente em direção a ela, porém não a encontrei mais ali. Procurei que nem uma toupeira mais um pouco e escutei bem do meu lado uma voz suave e risonha:
-Estou aqui Felipe. – Me viro e ela estava sentada no banco ao meu lado. Ela realmente era bonita e ao mesmo tempo segura de si, firme... Sim, firme e serena.
-Opa. – Disse eu em meio a um sorriso amarelo.
-Então, você é primo daquele cara?
-Não tenho culpa disso.
-E eu não tenho culpa de ter uma amiga daquela.
-É... – Este era um daqueles típicos momentos em que eu não sabia o que dizer. Não tinha a versatilidade dos garanhões. Acabei meu uísque e fiquei brincando com o copo.
-Posso te pagar outra dose Felipe?
-Se você quiser... –Ela sorriu e pediu outro scotch pra mim. Então me bateu uma idéia simples que até aquele momento eu havia ignorado: Qual o nome dela mesmo?
-Desculpa moça, mas qual teu nome mesmo?
-Silvana.
-Humm... Posso te chamar de serena?
-Se você quiser.
-Beleza então. – O drinque chegou e eu beberiquei de novo. Ela me olhava com os olhos de uma pessoa que estava completamente fascinada com o que via. Fiquei um pouco inibido beirando à desconfiança e disse:
-Seja lá o que o meu primo disse de mim, acredite, eu não sou isso tudo.
-Na verdade seu primo não falou muita coisa de você, só seu nome e que você estava sozinho.
-Então... – Ela sorriu e me disse:
-Você deve estar se perguntando, por quê?
-Confesso que sim.
-Digamos que te achei interessante. Você parece que quer sumir, gosto disso.
-Por quê?
-Quem não gosta de aparecer ou tem muito a esconder e não quer compartilhar com os outros ou se sente inibido com as pessoas, e eu acho isso um charme.
-É, deve ser. – Beberiquei de novo o uísque.
-Você é indiferente, metido! Se sente superior ou é só timidez?
-Nem um nem outro. Só gosto de ficar na minha.
-Então... Estou te incomodando?
-Não, você me parece legal.
-Sou sim! Você vai ver! – Nisso ela sorriu, virou e se escorou no balcão. Ela usava um vestido florido que lhe caia muito bem. Olhava o pessoal fixamente. Então ela se vira pra mim e pergunta: - Você não dança?
Me virei e vi o pessoal dançando na pista. A música eletrônica, ritmo rápido e constante, as luzes piscando, o pessoal olhando para o chão balançando as cabeças e os braços, alguns de olhos fechados com a cabeça e os braços erguidos para cima.
-Isso é dançar? – Retruquei.
-É uma coisa interna Felipe... É tipo uma pulsação que a gente sente, entende?
-Não.
Ela sorri me olhando de baixo para cima, para e olha fixamente nos meus olhos. Puta que pariu, poderia fazer tudo por ela naquele instante em que seus olhos cruzaram como uma bala com os meus. As mulheres quando querem alguma coisa de um homem ordenam com os olhos, mas uma ordem irrevogavelmente aceita pelo homem e seu instinto.
-Vamos dançar?
-Prefiro ficar conversando com você aqui, se não se importa.
-Claro! Mas...
-Mas?
-Mas você nem ta falando nada, fala aí!
-Não tenho muito que falar, o que é que eu poderia falar? – Beberiquei mais um pouco do uísque.
-Sei lá, qualquer coisa. O que sente, o que sabe?
-Não sinto e não sei de nada ultimamente. Quer dizer... só disso que sei ou sinto, porra, sei lá.
-Olha ai! Já disse alguma coisa!
-Tá legal então, sua vez agora, porque é que você não fala nada?
-Por que te observo.
-É, isso eu to vendo, mas o que você procura em mim?
-O que aparecer, ué!
-Que merda heim... – Ela gargalhou. – E o que é que apareceu pra você até agora?
-Um ser... Autentico!
-Heim?
-Você é espontâneo, seus diálogos são fluidos, não tem muitos crivos...
-Crivos no caso seria papo furado?
-Uma artificialidade imposta, conforme as leis da etiqueta e da moral e dos bons costumes...
-E porque você acha que ela tem que se impor?
-Talvez porque não seja tão inerente ao sujeito.
Ela me olhava de um jeito estranho. Desconfiei que estivesse sendo alvo de uma experiência cientifica, ou seja lá o que for, só sei que estava tendo essa impressão. Então ela me solta a seguinte frase: -O que você acha do sujeito hoje em dia? – Porra, que tipo de pergunta era aquela? Eu não achava nada, respondi apenas tendo por base tudo o que eu estava sentindo naquele momento.
-Eu acho que a maioria das pessoas estão esgotadas... Elas mesmas se esgotam pela pressão insana que elas mesmas se impõem... Acho que essa pressão é perversa porque inculca na maioria das pessoas uma culpa que elas não tinham o direito de sentir... Acho que isso é culpa dessa lógica absurda da eficácia, se você não se preparar constantemente você não sobrevive, isso pra mim é uma guerra suja porque o mundo te prepara apenas para ficar preparado para o que eles ditam, o que o mundo determina, você nunca esta preparado para você mesmo e com isso você esquece de se formar por si mesmo... Sei lá, acho que o que existe hoje de fato é a vontade de ter vontade própria, entendeu?
-Sim! Mas de onde vem essa historia de vontade?
-Vem da humilhação.
-Hã? Como assim?
-A todo momento nos humilhamos. Com isso matamos a golpes de pancadas a nossa própria vontade. Não fazemos por vontade própria determinadas coisas, fazemos porque é determinado que façamos, caso queiramos sobreviver “dignamente”. Compreende? Somos assediados moralmente a todo instante. E o pior de tudo é que nos resignamos porque naturalizamos o mundo dessa forma, mas esquecemos que somos nós quem fazemos ele ser assim.
-Entendo. E o mundo se acomoda, presencia barbáries e fica imune e mudo.
-De que mundo estamos falando afinal de contas?
-Acho que é aquilo que imaginamos como mundo, que achamos que esta além de nossos pensamentos... O que conseguimos imaginar, o não imaginável está fora desse mundico... Não é o mundo das possibilidades, é só o restrito, entende?
-Sei... A questão é: Achamos que de fato pensamos ou pensamos de fato? Pode uma cultura desenvolver um mecanismo de abstração tão violento que de fato nos inflija a pensar que pensamos ao invés do livre exercício de pensar por conta própria?
-Acho que pensamos sim Felipe... Pensamos sim, de fato, mas de uma maneira, eu diria, bitolada...
-Sabe moça – bebi mais um pouco do uísque – o homem de hoje esta engajado em seus projetos porque ele enxerga a vida não como uma possibilidade, mas antes vê a vida com a angustia daquele que joga... e que joga pra vencer.
-Entendi.
-E se tudo é um jogo, não há um compromisso para com os outros jogadores, já que esses são vistos como concorrentes e adversários.
-Mas haveria vencedores? Perdedores? Não sabem que pode haver uma filosofia ganha-ganha?
-Acho que... Acho que haveria aqueles que ganham rodadas... Mas tudo depende de como a pessoa vê a sua vida...
-Não sei... Não estou ciente se jogo ou não... Às vezes devo jogar, para que, eu ainda não sei... Garçom me vê outra batida, por favor...
-O bom jogador é aquele que sabe parar para ter controle do jogo, e não o contrário. Há de se ter a tal da serenidade, temos que ter consciência do que somos... A maioria dos seres humanos não tem consciência do que são, ou melhor, da sua situação... Situação de dependência.
-Sim, dependência total! A maioria da humanidade ainda quer ter controle sobre a natureza e o mundo, não dão trégua.
-Aqui sua batida moça. – disse o garçom.
-Obrigada. – chupou um pouco no canudinho e continuou – sabe, eu estudei a teoria do demônio de Laplace e as pessoas ainda pensam dessa maneira, pelo menos os latino americanos – disse-me olhando para a pista de dança.
-No fundo é isso que todos querem: Poder. O poder nos garante de certa maneira e nos faz esquecer da nossa situação fundamental de dependência. Por isso acredito que os humildes estão a salvo de si mesmos.
-Os humildes? Agora não entendi.
-É porra. Humildes são aqueles que se conhecem e sabem pelo que lutar; os coerentes e os que não se enganam sobre si mesmos. Tendemos a pensar que os humildes são passivos, isso pra mim é ressonância da racionalidade competitiva. Em uma palavra serena, os humildes são os sinceros e honestos... Isso não quer dizer necessariamente que eles são bons ou maus, depende daqueles que são afetados pelo tapa da realidade sobre si mesmos, entendeu?
-Entendi.
-Qual das mascaras queremos usar?
-A da mesquinhez! – Sugou mais um pouco da batida do canudinho.
-Sabe o que me mata? O pedantismo. Porra pensa comigo, porque não respeitar para ser respeitado? Porque não considerar alguém como um elemento que carrega uma gama de inteligência e capacidade? E história... Experiência de vida, visões de mundo...
-Por que não se enxergam as possibilidades...
-É, pode ser. Estamos cegos pelo preconceito que carregamos e que alimentamos em nós mesmos quando achamos que somos mais só porque temos mais estudo, mais dinheiro, mais beleza. Somos extremamente quantitativistas e nem percebemos.
-É uma analise boa, mas você não acha que ela é possibilitada pelo momento de mutação do mundo? Eu acredito que o mundo vai girar ou hecatombe ou um planeta melhor! Porra, há tanto assassinato por ai, vamos todos morrer?
-Claro que vamos morrer, caralho! Não somos imortais, pô!
-Desculpe...
Nesse ponto eu percebi a cagada, fiquei nervoso não sei por que, talvez por estar a vontade demais com ela e daí eu me permitir explodir um pouco... Tentei consertar.
-Olha moça... Eu não sei de nada. Só sei que estou cansado... Sou um paralitico que se apóia em muletas de pensamentos, mais um que não anda com as próprias pernas...
-E quem não é? Olha, adorei construir esse dialogo com você!
-E o que é que você construiu?
-Ué, o dialogo!- Chupou de novo o canudinho.
-Pensei que você iria dizer algo do tipo... algo inacabado e que um dia hei de destruir, ou coisa parecida...
-Errou, não sou tão previsível!
-É, ta... O que você faz da vida moça?
-Faço psicologia, formo esse ano. E você?
-Faço história.
-Interessante!
-É... – Foi então que meu instinto me deu um chute no saco me lembrando do que um homem faz com uma mulher...
-Escuta – continuei- ta afim de ficar comigo?
-Nem um pouco.
Não contive a gargalhada.
-Tudo bem então... – beberiquei mais um pouco do uísque. Acabou o uísque e o assunto.
-Você desiste fácil assim?
-É...
Nisso chegou meu primo acompanhado pela amiga da Silvana. Ela chamou a Silvana para um canto e ficaram conversando e rindo. Meu primo sem classe e cheio de hormônio masculino me bate no ombro com sua mão pesada de euforismo.
-Primo! Que mulher!
-Ah é? – Sim, liguei meu foda-se. Na verdade já o havia ligado quando ele estava a caminho de torrar o meu saco.
-É! Demais! Ela valeu por cinco!
Foi como se eu levasse um soco no estomago. Me deu vontade de quebrar o copo de uísque na cara do desgraçado depois que ele soltou essa. Novamente sinto um tapa pesado no ombro.
-E aê primo, pegou a loirinha?
-Não.
-Porra, perae! Vocês ficaram só conversando? – Para o meu primo mulher não tinha cérebro... Só um buraco para se enfiar o pau.
-Pois é... Ela tem um papo legal...
-Tá fraco heim primo, ta fraco!
-É pois é...
A Silvana e sua amiga vieram até nos de novo. Disseram que tinham que ir embora porque estava tarde e aquelas coisas todas. Me despedi com um aceno de cabeça para a Silvana. Ela veio, me abraçou e me beijou a bochecha. Percebi que meu primo estava agarrando e beijando na boca a amiga da Silvana. Ele prometeu ligar pra ela. Elas foram embora. Sim, a Silvana não pagou meu uísque. Meu primo voltou à pista para, segundo o que ele mesmo me disse, “caçar outra gata”. Paguei minhas bebidas e voltei para casa. Novamente a pé, e novamente tive insônia.
Felipe Ribeiro
domingo, 13 de dezembro de 2009
Saber da queda
Talvez seja quando estamos mais cientes do controle total do nosso próprio coração, talvez nessa ilusão de poder é que estamos na verdade mais vulneráveis. Isso porque a gente concentra toda a nossa atenção, todo nosso foco para dentro de nós, para dentro de nossas dores, sufocando-as, e é ai que nos esquecemos de notar o exterior, lá mesmo, onde tudo pode acontecer. É ai que não vemos as pancadas a quais estamos sujeitos. Há pancadas e pancadas, algumas são tão fortes que nem a sentimos por completo, só caimos pelo golpe, sem saber onde, quando e porque. Há outras que são leves, sutis, um toque macio que faz dormir e com isso te faz cair também. No fundo temos que saber cair, controlar ao menos a queda pois ela é inevitável ainda que em alguns casos desejável, mas isso não nos livra de cair. Saibamos cair, então.
Felipe Ribeiro
Felipe Ribeiro
sábado, 14 de novembro de 2009
Conversas pra boi dormir, parte 6.
Ora muito bem, eu estava na biblioteca tentando estudar um pouco. Eu disse tentando, porque simplesmente não consegui. A biblioteca da universidade em que estudo consegue ser tão barulhenta quanto um canteiro de obras. Isso sem contar as pequenas distrações que simplesmente passam por seu campo de visão e olfato. Geralmente começa pelo olfato, um perfume suave, feminino, depois acaba no campo visual com o corpo que carrega esse perfume; o que significa geralmente um corpaço feminino. Enfim, necessita-se de muita disciplina e força de vontade para estudar num ambiente desses. Quando eu penso que enfim posso voltar e ler a página que estou tentando ler a mais de vinte minutos eis que me aparece aquele meu amigo que, ironicamente, me pergunta:
-E ai Frank, como é que tá?
-Uai cara... desse jeito que você tá vendo.
-Ixi, que aconteceu? Um acidente? - Sim, eu acho que já disse que ele era irônico, ou ao menos tentava ser.
-É... pois é.
-Mas e ai, quanto tempo!
-É... pois é.
-Que anda fazendo de bom?
-Ahh.. enfim, você sabe...
-Nada né?
-Justamente!
-Eu estou dando aula pra caramba, o cursinho esta me ocupando muito tempo... E ainda estou fazendo a monografia! - Não me lembro de ter perguntado nada a ele, mas tudo bem.
-Ahh é... Eu também estou fazendo a monografia. -Lembrei subitamente do que estava tentando fazer naquela biblioteca.
-Mas e ai Frank... Arrasando os corações?
-Heim?
-Perguntei se continua arrasando os corações das mulheres. - Eu já comentei que esse meu amigo é muito irônico?
-Ahh... Bom cara, duvido muito que as mulheres tem isso.
-Isso o que?
-Coração. Sabe como é, quando algum filho da puta que arrasa com o coração delas e elas ficam traumatizadas e se fecham para qualquer um que apareça na sua frente ou simplesmente quando a vaidade delas é tanta que não conseguem doar nada que só o seu corpo.
-Sei como é isso. Na verdade acho mesmo que o senhor poderia muito bem arrasar algum. Você é um sujeito bacana, inteligente, bom. - Outra vez a ironia. Fico pensando, se eu tivesse a competencia de ser ao menos um filho da puta eu não estaria sozinho hoje em dia. Mas, como sugere o meu amigo irônico, sou um homem bom, bacana, inteligente... Por isso estou sozinho? Que ironia.
-Pois é né... pois é. - Outra vez o foda-se.
-Bom grande, eu tenho que ir agora, bons estudos pra vc!
-Tá... valeu.
Na verdade não sei quem é mais ironico, se o meu amigo tentando me alegrar com mentiras que sei bem que não significam nada para a minha pessoa ou se sou eu que o considero ironico. Mas no fim das contas continuei a estudar... ironicamente.
Felipe Ribeiro
-E ai Frank, como é que tá?
-Uai cara... desse jeito que você tá vendo.
-Ixi, que aconteceu? Um acidente? - Sim, eu acho que já disse que ele era irônico, ou ao menos tentava ser.
-É... pois é.
-Mas e ai, quanto tempo!
-É... pois é.
-Que anda fazendo de bom?
-Ahh.. enfim, você sabe...
-Nada né?
-Justamente!
-Eu estou dando aula pra caramba, o cursinho esta me ocupando muito tempo... E ainda estou fazendo a monografia! - Não me lembro de ter perguntado nada a ele, mas tudo bem.
-Ahh é... Eu também estou fazendo a monografia. -Lembrei subitamente do que estava tentando fazer naquela biblioteca.
-Mas e ai Frank... Arrasando os corações?
-Heim?
-Perguntei se continua arrasando os corações das mulheres. - Eu já comentei que esse meu amigo é muito irônico?
-Ahh... Bom cara, duvido muito que as mulheres tem isso.
-Isso o que?
-Coração. Sabe como é, quando algum filho da puta que arrasa com o coração delas e elas ficam traumatizadas e se fecham para qualquer um que apareça na sua frente ou simplesmente quando a vaidade delas é tanta que não conseguem doar nada que só o seu corpo.
-Sei como é isso. Na verdade acho mesmo que o senhor poderia muito bem arrasar algum. Você é um sujeito bacana, inteligente, bom. - Outra vez a ironia. Fico pensando, se eu tivesse a competencia de ser ao menos um filho da puta eu não estaria sozinho hoje em dia. Mas, como sugere o meu amigo irônico, sou um homem bom, bacana, inteligente... Por isso estou sozinho? Que ironia.
-Pois é né... pois é. - Outra vez o foda-se.
-Bom grande, eu tenho que ir agora, bons estudos pra vc!
-Tá... valeu.
Na verdade não sei quem é mais ironico, se o meu amigo tentando me alegrar com mentiras que sei bem que não significam nada para a minha pessoa ou se sou eu que o considero ironico. Mas no fim das contas continuei a estudar... ironicamente.
Felipe Ribeiro
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