domingo, 26 de junho de 2011

Ar rarefeito.

Quando você desiste acontece algo no minimo anormal. Você se encontra de repente numa paz interior que te deixa num estado de letargia, num estado em que nada mais pode te atingir. E daí se eu perder o ônibus? Já o havia perdido mesmo... e daí se eu chegar atrasado em casa? O que iria fazer? Muito provavelmente dormir e acordar de manhã pra mais um dia de serviço... Sabem, a rotina chega a um estado que não mais massacra porque já não sobrou nada para massacrar de você. Então, esse estado de paz interior faz com que você se anestesie... Não sei se é ruim, mas quando isso acontece um zumbido aparece sempre no meu ouvido esquerdo, interessante... Acho que é um processo natural de sobrevivência social que impede a pessoa de explodir e cometer alguma besteira. Natural? Tenho minhas dúvidas... O medo é natural, mas como eles trabalham com esse medo é completamente artificial e cruel. te impelem o tempo todo a ser o que se pode ser, o que é designado para se ser e isso vira uma bola de neve que acaba esmagando de fato aquilo que você de fato é, ou seja, aquilo que no intimo você se preocupa em preservar e que a maioria das pessoas nem fazem muita questão de saber. Tudo isso somado ao pavor da rejeição social facultam a uma atmosfera no minimo asfixiante. A maioria das pessoas já se acostumaram com esse ar rarefeito. E quando ele quase acaba vem a paz interior, o dispositivo automático que impede a pessoa de explodir e ganhar a verdadeira dignidade que lhe foi tirada ao preço de uma provável rejeição social, a uma provavel falta de dinheiro, a uma provavel demissão por justa causa, a um provavel deserdar de seus pais, enfim, a toda uma gama de prováveis que provavelmente podem acontecer muito provavelmente. A verdade que nos dizem é que o ar sempre foi rarefeito nesse mundo. Poucos conseguem de fato respirar verdadeiramente. Respirar verdadeiramente é respirar a plenos pulmões, é se sentir pleno de saúde física, mental e o escambau. Mas a verdade é que existe ar pra todo mundo, as pessoas é que acham que existem pouco, e esse pouco que tem é disputado por todos os narizes possíveis. É essa sensação de peso que acompanha todos as pessoas, essa sensação de que o ar pode acabar a qualquer instante e você morrer de sufocamento... Entendem? Acho que estou falando besteira, afinal nos ensinam que devemos nos tornar melhores naquilo que fazemos sempre, nunca parar no caminho, nunca ficar satisfeito com o que tem e com o que se faz com o que se tem, ou seja, com o que se é de acordo com a perspectiva do que se tem, e que tudo isso dignifica a pessoa. O que vem a ser dignificar um ser humano? O que é dignidade? Qual regra você tem de seguir para se tornar digno? Existe alguma regra? E o que vale a dignidade se o jogo que ai esta é completamente insano e indigno? Sim, sim, vou compartilhar a minha dignidade com as pessoas dando um exemplo de cidadania, vou pagar meus impostos porque sou digno, vou trabalhar porque sou digno, vou consumir porque sou digno... A pergunta é: Por que sou digno? Porque tenho que respirar o pouco ar que dizem existir e que nos deixam respirar, tenho que ser digno de respirá-lo para sobreviver e conseguir alcançar a tão sonhada vitória na minha vida... E daí... sim, e daí estarei em paz, com a consciência limpa de que eu de fato vivi dignamente... Consegui sobreviver. Estranho, o zumbido no meu ouvido esquerdo está aparecendo de novo enquanto escrevo isso... Eu desisti, internamente. O fato de eu continuar com meus afazeres e continuar simplesmente não demonstra uma hipocrisia... Demonstra uma vitória, porque eu consigo respirar a plenos pulmões. A plenos pulmões, estou em paz, a plenos pulmões no ar rarefeito que me deram a respirar, a plenos pulmões... Pois a liberdade se encontra sempre à disposição de quem a quer vivenciar, mesmo estando atado o ser livre é livre em qualquer estado. Não tenham medo de respirar... Há ar para todos.

Felipe Ribeiro.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Desculpem por isso, parte 2.

Perguntaram-me porque não ando escrevendo mais no meu blog. Porque não tenho o que escrever, talvez. Porque deveria? Quem sabe? Eu não sei de nada. Apesar disso ando contente. Não, talvez seja apenas o velho tédio que voltou depois de alguns anos de profunda tristeza. Nesses anos eu escrevia muito, confesso. Não porque eu tinha o que escrever, mas talvez porque eu necessitava escrever, necessitava extravazar. Agora não tem nada para extravazar, já extravazou. Extravazou porque a jara estava quebrada e tudo que estava dentro escorreu para fora, agora só sobrou os cacos e os remendos que não foram muito bem remendados. Enfim, apesar disso tudo eeu juro que me esforço para escrever um texto inteligente, um texto ácido, um texto enfim que me exponha de uma maneira favorável no cenário daqueles que se dizem escritores. Sim, eu sei, ridículo, eu sei, os escritores. E os que acham que o são então, melhor nem dizer. Eu acho que sou um desses que pensam que são escritores. Eu não sou, apesar de gostar de escrever. Aliás, sobre o que eu estou divagando? Agora mesmo me peguei numa indisposição absurda, aliás, estou com ela agora enquanto tento escrever alguma coisa aqui para as poucas pessoas que sentem a falta dos meus escritos, se é que sentem. Nunca consegui entender as pessoas, nunca pensei em termos do tipo "essa pessoa é hipócrita" ou "essa pessoa é honesta". Sou muito burro para pensar assim, e demasiado despretencioso para tanto. Penso nas pessoas em apenas um único termo que nem sei bem ao certo se é o mais válido. Não, na verdade nem isso. Não, na verdade não mesmo. Ando cansado, sei disso. Porque ando cansado? O mundo grita pela justiça, há coisas horriveis e belas ai para serem escritas, há coisas lindas e belas que ainda me chocam, há coisas tristes que me fascinam, ou seria o contrário, nunca sei. Talvez o que me falte é a emoção. Emoção vem do latim que significa mover-se. O que me faz mover agora não é bem uma vontade, mas sim a própria inércia do que foi um dia uma vontade terrível de escrever. Essa mesma inércia, que é a tendência de os corpos que estavam em movimento continuarem em movimento, esta se extinguindo aos poucos. Tenho um emprego, confere. Amo uma mulher, confere. Tenho saúde, confere. Tenho amigos, confere. Não devo na praça, confere. Tenho uma família, confere. Todas as coisas boas da vida me acusam e me fazem tremer de emoção quando penso que poderia ser pior. Isso é assustador, pensar no pior. Lógico, sempre é assustador. Mas, estou perdendo de novo o fio da meada... O que eu quero dizer é que não tenho motivos para me entristecer. E a tristeza me faz uma falta danada. Vai entender! Talvez eu tenho é saudade do tempo que eu tinha disposição para escrever sobre qualquer coisa, sem pretensão alguma. O grande problema hoje é que eu preciso de alguma pretensão para escrever, porque é uma necessidade eu me tornar útil, porque eu me sinto um inútil. E a bem da verdade, quando eu era de fato um inútil, e não como hoje que eu só me sinto um, me sentia muito mais livre para escrever. Melhor dizendo: Agora que sou útil para a sociedade porque eu trabalho, porque eu amo, pago minhas dívidas, não dou trabalho para minha familia, tenho uma saúde impecável e sou aquilo que dizem ser o objeto social do homem de bem me sinto podre por dentro a tal ponto de não ter nada para escrever. Uma amiga me disse que eu estava possuido hoje. Deve ser o verme da comodidade, o parasita da normalidade que se instalou em mim e que esta a comer velhos ímpetos de criatividade e a cagar sonhos que antes eu não tinha, como por exemplo entrar com um financiamento de uma casa, ajuntar dinheiro para não me preocupar futuramente, contar os anos para minha aposentadoria... E minha amiga acertou em cheio: Onde esta o Felipe? Aquele felipe chato, carrancudo, calado, machista, idiota, hipócrita, mentiroso, bêbado, triste, sofrido, miserável, mas que tinha a sua alma intacta e a sua liberdade de expressão, porque tinha o que expremir? Não sei. Confesso que não sei. Mudei, para melhor, o que me tornou pior. E não tem culpados, não tem inocentes. O que se tem é isso. Fato. Desculpem por isso, outra vez.


Felipe Ribeiro.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Minto, logo sobrevivo.

Qual é a verdade a que estamos sujeitos?
Qual a verdadeira verdade a que estamos imersos?
No mudo, fundo e obscuro ingresso
Do misterioso e universal preceito
Que temos total certeza que nos afeta
E afetando nos afastamos
Assustadiços, envergonhados, submissos...
A qual verdade estamos incluidos?
Todos nós, sem nenhuma falta, nenhuma excessão...
A fuga é a verdadeira mentira...
A mentira é a verdade nos dias atuais...
O esforço se transformou no domínio das coisas banais...
E a banalidade não precisa de nenhum esforço...
Nos dias atuais ela é a regra...
E a excessão é a Lei.
E essa mesma Lei é inexorável...
Universal pois afeta a todos...
Há os que fogem na máscara da independência...
Prorrogando o inevitável...
E o inevitável é evitável de todas as maneiras...
Em vão.
E em vão vamos pondo a falsa vontade...
Em vão pensamos que podemos muito...
Em vão achamos que temos o poder sobre...
Um absurdo...
Um orgasmo egoístico de fundo...
E a pretensão como medida certa.
E certamente não mede nada...
E como medir se nem sabemos usar a régua?
E a Verdade impera, sempre...
Fortemente nos corações bons...
Avassalodaramente nos ignorantes...
Nos bêbados de si mesmos...
Nos fantoches alheios a sua verdadeira vontade...
E nos que mesclam perfeitamente o seu orgulho
E a sua vaidade...
Criando assim a indiferença e a fatalidade...
Da mentira da verdade de hoje em dia...
E da verdadeira mentira de todos os dias...


Felipe Ribeiro.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Alienado, graças a Deus!

Então finalmente eu consegui ficar em casa sozinho durante algumas horas. Fazia alguns meses que não assistia a nenhuma programação de nenhum canal de televisão. Lá estava o controle, ali a televisão, ali o sofá. Perguntei-me se valeria a pena aquele torpor. Não valia, eu bem o sabia, mas por mera curiosidade resolvi ligar o aparelho e constatar o que estava se passando na programação de alguns canais. Assim que liguei o aparelho o canal respectivo era o mesmo que passava umas seis novelas por dia e que não era novidade alguma estar sintonizado nele. Meus familiares adoram novelas. Porém já havia passado o horário da última novela do dia e estava prestes a começar um programa designado "reality show", algo assim. Primeira cena: Uma mulher completamente embriagada tirando a calcinha e rebolando os quadris. Segunda cena: Alguns homens musculosos gritando e xingando uns aos outros. Terceira cena: Todos pulando e dançando ao ritmo de uma banda ao vivo, todos com suas respectivas bebidas em mãos. Mudei de canal. No outro estava passando um debate entre pensadores brasileiros sobre a politica de um país distante que estava sendo governado por um ditador a mais de vinte anos e que agora estava sob a insurreição da maioria da população. Assisti um pouco e ouvi todas as opiniões. Mudei de canal e estava a passar um programa humoristico onde havia algumas mulheres musculosas que rebolavam sem parar. Assisti um pouco e mudei. Outra entrevista. Mudei. Um pastor gritando aos seus fieis. Prestei um pouco de atenção. Mudei. Voltou ao primeiro canal onde ainda se passava o tal "reality show". Dessa vez uma mulher falava a outra sobre um plano terrivel em que a maioria estava empenhada para desmoraliza-la. Não sei se a mulher era a mesma que eu havia visto no começo, mas se fosse não precisaria de ninguém para desmoralizá-la, ela havia feito isso minutos antes. Desliguei a televisão. Não havia nada de novo em meses, absolutamente nada. A mesma vaidade, a mesma promiscuidade de sempre, a mesma apelação. Não havia o que se fazer, só mesmo desligar a televisão. A mim pareceu o mais sensato. Eu fiquei a imaginar quem poderia assistir aquilo tudo e conseguir gostar daquilo e por que? Logo em seguida minha familia retornou e a primeira coisa que fizeram foi ligar a televisão. O tal "reality show" já havia acabado, e minha mãe me pergunta se eu não havia visto. Disse que não. Minha irmã mais nova pega o controle e coloca num canal onde se paga para assistir à aquele "Reality show" durante 24 horas por dia. Ela ficou no sofá por quarenta minutos assistindo aquelas pessoas que não falavam coisa com coisa. Uma cena me marcou profundamente: Durante mais ou menos uns vinte segundos a camera do "reality show" focou numa mulher que estava dormindo. Vinte segundos. Eu observei minha irmã. Estava vidrada naquela cena. Observei novamente a cena e a moça ainda dormia. Cocei a cabeça e pensei: "Que diabos! O que é que ela esta vendo que eu não consigo ver?" Respirei fundo e fui para meu quarto terminar de ler um livro. Acho que o livro se chamava "As vinhas da ira". E ainda me chamam de alienado porque eu simplesmente não sei o que acontece nesse "reality show". Sim, eu sou um alienado, nesses termos, eu sou um alienado. Com orgulho, um alienado, um fora de sintonia, um ultrapassado, atrasado, mediocre, ignorante. Sim... nesses termos, sim, eu sou. E devo confessar que continuarei a sê-lo enquanto durar o pouco senso que eu tenho a respeito de minha dignidade.


Felipe Ribeiro

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Desculpem por isso. (parte 1)

Tenho cada vez menos tempo para escrever aqui, portanto tenho cada vez menos inspiração para escrever algo que realmente vale a pena ser escrito; o que não quer dizer que tudo que eu escrevi até aqui seja lá muito relevante para a humanidade. Portanto devo escrever que ultimamente me sinto cada vez menos eu. O que é engraçado porque a maior parte da minha vida tentei de fato descobrir quem sou eu para mim mesmo e agora que eu já me cansei de me procurar descubro que não estou sendo o que eu costumava ser e portanto estou sendo cada vez menos eu. É estranho discernir alguma coisa pela sua falta, mas é exatamente isso que acontece com os que de fato não são atentos para com as coisas mais essencias em si próprios. É estranho notar essa falta e como ela se faz presente. É como uma inércia, é como um motor quente que para de rodar mas que ainda esta estalando de quente. É como uma ventania, uma gigantesca tempestade que vai se acabando aos poucos... Bom, e o que é que eu quero dizer com isso afinal de contas? Não tenho a mínima idéia. Acho que estou escrevendo por tédio. E se alguém chegou até aqui nessa leitura significa que está mais entediado do que eu mesmo. Queria escrever um poema... Mas não consegui. Queria escrever um texto profundo, filosófico, uma anedota, alguma coisa com vida o suficiente para dilatar a pupila de alguém... Queria apenas escrever. E saiu isso. Desculpem por isso.


Felipe Ribeiro

sábado, 15 de janeiro de 2011

Conversas pra boi dormir - parte 8

Estava eu em mais um dia de serviço como vendedor de livros quando fui abordado por um garoto.
-Moço, eu queria um livro bom, o que você me indica?
Ahh... como é bom falar de livros bons. Mostrei-lhe Dostoievski, Kafka, Bukowski, Hemingway, Victor Hugo, Herman Hesse, John Steimbeck... Mostrei-lhe tudo que achava bom para o rapaz, tudo que poderia de alguma forma nutrir seu espirito, aquecer-lhe a dignidade, inquietar-lhe a monotonia dos pensamentos... tudo. Tudo em vão.
-Mas... Moço, esses livros são muito grossos...
-São o que? -Refreei meu impulso e respirei profundamente. Vi então que eu estava vendido, amarrado, subjugado, acorrentado na máxima "o cliente tem sempre razão".
-São muito grossos... Não tem um mais fininho ai não?
Olhei bem para o garoto... Meio gordo, gel no cabelo, bem perfumado, camisa social, calça jeans, tenis de marca, usava aparelho ortodontico... a boca meio aberta, mastigava chicletes...
-Quantos anos você têm? -Perguntei
-Eu? Quinze...
-O que você procura?
-Como assim?
-O que você quer ler?
-Um livro bom... Tipo, que me faça passar susto.
Pensei em sugerir-lhe algum livro sobre política internacional ou algo do tipo, mas a piada seria hermetica demais e ele muito provavelmente não entenderia...
-Que te faça passar susto? Terror?
-Isso! Terror... Tem?
Mostrei-lhe a bancada com os livros de terror.
-Ahhn... Não tem um mais fininho?
-Não... tenho só esses...
-Eu queria um livro bom... tipo da saga crepúsculo, entende? Aquela saga é boa!
"Deus Pai Todo Poderoso, Criador do Céu, Criador da Terra, Criador de tudo e de todos... Dái-me força ó Pai... Dai-me força nessa hora sombria, porque mesmo que eu passe pelo vale das sombras e da morte, com Ti não perecerei..." Foi o que me passou no coração naquele instante. Não poderia perder as estribeiras, não poderia deixar tomar conta o comichão que me coçava pedindo para brincar com aquele garoto, mas que talvez me faria perder o emprego naquele mesmo dia... Todos temos que saber as consequências dos nossos atos...
-Escuta... Que tipo de livro você quer?
-Um livro que me faça ficar com trauma! É... traumatizado!
Pensei em lhe indicar alguns livros de auto-ajuda... Mas não, seria pesado demais para aquela idade saber que num futuro não muito distante as pessoas gastariam muito dinheiro comprando livros que ditariam o que é bom para elas serem felizes...
-Olha... Não é muito bom você ler livros assim...
-Olha! Eu tenho dinheiro! E minha mãe não vai ficar sabendo!
"Deus Pai Todo Poderoso, Criador do Céu, Criador da Terra, Criador de tudo e de todos... Dái-me força ó Pai... Dai-me força nessa hora sombria, porque mesmo que eu passe pelo vale das sombras e da morte, com Ti não perecerei..." Respirei... Lembrei de súbito de um livro bom e fino do Camus: "A peste". Mera coincidência com o contexto, se é que coincidências acontecem... Mostrei o livro para o garoto explicando para ele mais ou menos a trama do livro.
-E é bom?
-Tem morte e podridão.
-Massa! Escuta, vou levar... E... Vocês tem livro ai de sacanagem?
-Sacanagem?
-É... Você sabe... Sacanagem... Mulher pelada! - E ficou vermelho como um pimentão rindo de leve...
-Não, não trabalhamos com isso... E eu nem poderia te vender isso, você é de menor...
-Sim, tá certo... Mas ninguém ficaria sabendo...
-Eu ficaria.
-Ahhh mas você é o vendedor, faz tudo que a gente pede...
"Deus Pai Todo Poderoso, Criador do Céu, Criador da Terra, Criador de tudo e de todos... Dái-me força ó Pai... Dai-me força nessa hora sombria, porque mesmo que eu passe pelo vale das sombras e da morte, com Ti não perecerei..."
-Não dá... O pessoal do caixa não iria passar isso pra você.
-É verdade né...
-É...
-Tá bom moço, vou levar esse aqui, é fino...
"Deus Pai Todo Poderoso, Criador do Céu, Criador da Terra, Criador de tudo e de todos... Dái-me força ó Pai... Dai-me força nessa hora sombria, porque mesmo que eu passe pelo vale das sombras e da morte, com Ti não perecerei..."
-Você vai gostar...
-Será? Eu li a orelha dele e não entendi muito bem...
"Deus Pai Todo Poderoso, Criador do Céu, Criador da Terra, Criador de tudo e de todos... Dái-me força ó Pai... Dai-me força nessa hora sombria, porque mesmo que eu passe pelo vale das sombras e da morte, com Ti não perecerei..."
-Obrigado moço, até mais!
-Até...
Pensei que era alguma pegadinha do pessoal que trabalha comigo, uma espécie de iniciação para os novatos, mas não... O que me consolou de vez foi uma das minhas colegas falar para mim:
"-É assim todos os dias... Acostume-se."
E acostumei-me.


Felipe Ribeiro

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Pré-Cambriano.

É um milagre eu conseguir escrever nesse blog. Algumas situações só tendem a comprovar o quanto sou um analfabeto digital. Dentre elas o fato de as pessoas falarem com a maior calma que irão baixar a tal música ou o tal filme, que não vão comprar cds nem dvds porque já estão no site e coisa e tal. Eu tenho uma inveja danada dessas pessoas. Eu ainda compro cd, ainda alugo dvd e me orgulho de dizer que não sei mexer muito bem na internet. Sou da época em que baixar música era sinônimo de comprar uma fita K7, sintonizar a rádio e esperar a música aparecer e gravar. Isso com bastante reza para que o tal do locutor não se intrometesse no meio da música. Sou da época em que se comprava fita VHS e gravava os filmes que passavam na Globo, na Manchete, no SBT, na Bandeirantes... Gravava com o maior cuidado, quando surgia o intervalo pausava e quando recomeçava apertava o REC. Época boa, não muito prática, mas muito boa. Uma merda, mas era bom. Hoje é bom, mas é uma merda para mim parafraseando o grande filósofo Tom Jobin. Não sei ao certo, mas tudo que é facilidade nos dias de hoje não me atrai nem um pouco. Agora a onda é o tal do Ipad, ou algo que o valha. Parece um totem no qual todos prestam veneração. Eu ainda prefiro um livro, as árvores que me perdoem. Prefiro escrever cartas também, detesto emails, acho o fim do mundo alguém me dizer que não tem tempo para escrever cartas, mas para ficar o dia todo na internet como um morto-vivo escrevendo o que acabou de fazer no tal do Twitter ou facebook ou não sei o que, isso tem. Alias, fiz um twitter a uns dois anos atras, só escrevi uma frase e desisti. Não entendi aquilo. E tenho orgulho de dizer isso. Aliás, orgulho é a única coisa que me resta, a única arma que eu tenho. Um vizinho meu de nove anos ao ver um disco de vinil disse alarmado: "Nossa, que cd gigante!" Tive orgulho em lhe explicar o que era aquilo, e ainda consegui me enrolar na tecnologia analógica. Meu celular por exemplo era de um tio meu que sobrou e me deu. É um modelo "velho" de sete anos. "Sete anos! Que absurdo! Ainda funciona?" As coisas não foram feitas para durar hoje em dia, as memórias também não. As pessoas só pensam pra frente, no que vai melhorar, na novidade e coisa e tal. Melhorar o que? Já não está bom o suficiente? Para mim já passou de bom, já ficou desnecessário. As pessoas fazem de um tudo de uma vez só, são dinâmicas, não têm tempo a perder em coisas que não sejam práticas... "Pra que fazer isso assim, vai demorar... Use o Tab, vai mais rápido!" E com isso eu ganho dois segundos, um tempo precioso demais para ser perdido. O secretário municipal de não sei o que da minha cidade (acho que de trânsito e transportes) estava falando para a televisão as justificativas para a construção de um viaduto no cruzamento de duas avenidas movimentadas da cidade, entre as justificativas destacou-se a incrível preocupação com o tempo em que o motorista fica parado no semáforo: dois minutos. Se as pessoas do dia de hoje conseguem se angustiar com um segundo perdido ao não usar a tecla Tab imagina dois minutos no semáforo... Eu fico imaginando o que as pessoas ultra dinâmicas fariam em dois minutos... Acabariam com a fome no planeta? Achariam a cura para as piores doenças? Não! No máximo enviariam piadas por email, escreveriam no twitter sobre o ovo cozido que ficou mole, assistiriam a um filme pornográfico ou, quem sabe, o que é pior, escreveriam num blog sobre toda essa ilustre porcaria.

Felipe Ribeiro

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

livros e mais livros.

Ora muito bem, comecei a trabalhar enfim num ambiente em que eu gosto muito: uma livraria. O problema é que com as livrarias, se é que posso chamar isso de problema, aparecem alguns livros que me fazem pensar muito no porque alguém publicaria tal e tal obra. Por exemplo, um livro que explique algum outro livro de sucesso que nem é tão complicado de se entender obviamente que irá atrair pessoas que não conseguem entender o óbvio. Essa semana tive o prazer de me encontrar com uma dessas não tão raras pessoas que me pediu um livro que era a explicação de um livro que era, por sua vez, a explicação de um outro livro que, por sua vez, nem era tão dificil assim de se entender. Sugeri a essa pessoa que comprasse o livro que foi alvo de duas publicações a seu respeito na tentativa de explicá-lo. Pensei comigo, porque algum autor irá escrever algum livro para só depois escrever outro para explicar o primeiro? Por que não escrever logo de uma vez um livro mais claro? A resposta, obviamente, é que a maioria desses autores escrevem muito para venderem muito e a lógica é simples, os autores tratam as suas próprias inspirações como sendo um produto. O problema dessa lógica é que com ela arrastam-se uma multidão de consumidores famintos por coisas novas e com isso obras que são escritas no intuito de explicar outras retiram dos próprios leitores a responsabilidade e a capacidade de compreensão da própria obra. A sessão de auto ajuda que o diga! Mas é uma experiência que considero de suma importância pois estou percebendo que numa livraria entram pessoas de todos os tipos e que tem gostos de todos os tipos porque ali se encontram livros de todos os tipos escritos por autores de todos os tipos. Você é o que você lê, mas muito mais, na minha opinião, aquilo que você procura ler, ou seja, o motivo de estar lendo isso ou aquilo. E os motivos são infinitos assim como são infinitas as possibilidades que cada pessoa carrega consigo de se melhorar ou não, e isso significa, na minha opinião que, por sua vez, não significa nada, ler por curiosidade e não por comodismo, ler por impulso e não porque simplesmente o livro x ou o y é o mais vendido e o mais positivamente criticado. Felizmente existem muitas pessoas assim, que procuram, fuçam, que simplesmente abrem o livro na primeira página e começa a lê-lo sem o auxílio de axiomas de alguns críticos literários ou de vendedores que estão lá para auxiliar na venda. Em suma, o que se está em questão aqui é a autenticidade da motivação de cada um, se ela pertence de fato a cada um, se ela nasceu da simples curiosidade autêntica, aquela que brota do fundo do ser e que reflete como ele é possibilitando assim a essa autenticidade se refletir nas escolhas de cada um que por sua vez acabam refletindo na postura que cada um carregará diante da vida, diante da feitura do seu próprio destino.

Felipe Ribeiro

domingo, 7 de novembro de 2010

Verbo transitivo direto.

Por falar em não entender e não explicar...
Por falar em coisas que nós sabemos e muito bem, e sem pensar...
E que ao mesmo tempo nem sequer sonhamos em sonhar...
Que sendo tão real ultrapassa o próprio imaginar...
Um fato, simples...
Irredutível, eterno...
Que eu chamo de amar...
Lembrei de súbito que hoje ao acordar...
Tive a impressão de ali não estar...
Pois o meu coração pretendia viajar...
Até onde você poderia se encontrar...
Em qualquer lugar...
Se tivesse você seria "o" lugar...
Se tivesse você seria especial esse ali estar...
Se tivesse você seria inesquecível esse ali...
E só falo do ali...
Só falo do chão onde você poderia pisar...
De você, em si, nem ouso falar...
Pois de você eu no máximo posso calar...
Porque a língua que eu deveria explorar...
Para descrever ao menos um pouco do seu olhar...
Não pode ser falada, nem ouvida, nem escrita...
Só sentida...
Gozada, suprimida...
Em toda a minha memória, em todos meus atos, em todo meu ser...
Estar...
Permanecer...
Ficar...
Mudar...
Aceitar...
Crer...
Respirar...
Existir...
Perecer...
Renascer...
E desse ciclo constante a que chamo de vida...
Você seria tão e tão somente só a partida...
Você seria o trajeto, o caminho, a ida...
A volta, a chegada, a despedida...
De tudo que ainda impuro perduraria...
De tudo que eu poderia me trair, me arrepender...
Você seria meu verbo transitivo direto...
Sem escalas, de rumo incerto...
Mas tomado de certezas vãs que não poderia aqui explicar...
Que não poderia aqui compreender...
Só certeza, e nada mais...
Nem do que, nem do quando, nem do como...
Só certeza, e nada mais.

Felipe Ribeiro

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Confusões e Contradições.

Há pessoas que confundem a mudança de opinião com uma possível contradição. A questão é mais complexa, porque essa confusão se dá justamente porque se confunde fidelidade com imobilidade de idéias, o que, a meu ver, nada mais é que um passo para o fanatismo. Acredito que mudar de opinião não seja uma contradição, seria, antes, uma prova cabal do que se decidiu de fato ser ou seguir ou fazer. Toda decisão é uma renúncia, pois se você decide você renuncia alguma escolha em prol de outra ou em detrimento de outra. Contradição não seria não saber o que se quer ou o que se pretende ser, isso é simplesmente ignorância de si mesmo. Contradição é, antes, uma espécie de traição, é você se trair sabendo que se trai, é você mentir para si e para os outros, sabendo que mente, mesmo que seja em prol dos outros ou em detrimento dos outros. E o que mais posso observar é uma onda de contradição, para não dizer mentira, invadindo o cotidiano silenciosamente, sutilmente, imperceptivelmente... É o amigo que lhe diz ser especialista em mulher quando, todos nós sabemos, nem mesmo as mulheres são especialistas nelas mesmas; é o sujeito que se mata no trabalho, que só lhe traz humilhação para a alma, mas que mesmo assim é fiel à imagem de bom cidadão que tenta e busca passar... A contradição está solta e com ela há apenas e tão somente desespero na medida em que não se pode mais controlar o próprio querer, a própria vontade. Em resumo, a mentira leva a mais mentira e, consequentemente a mais e mais prisão da própria vontade, o que os mentirosos não conseguem ver simplesmente porque confundem o ato de mentir com o ato de ser esperto que o engano consequente dessa mentira pode causar. Ser esperto, aliás, é outro predicado caro nos dias de hoje. Um predicado, ao que tudo indica, neutro, amoral, sem cor, apenas refletindo a vontade cada vez mais dependente de mentiras da pessoa que utiliza essa qualidade. Um ato de liberdade seria portando a verdade, tão somente a verdade. E se dizem que a verdade dói é porque não estamos acostumados com ela. A verdade dói mas a mentira destrói. Outra confusão que a maioria das pessoas tendem a fazer... Nem tudo que dói é destrutivo, mas tudo que é destrutivo sempre dói, e muito mais no fim das contas. Outra confusão é entre prazer, gozo e paz. Ter paz não significa propriamente ter prazer, a paz é alcançada, na maioria das vezes senão em todas, pela busca individual da verdade de cada um. E essa busca pode significar dor, renúncias dolorosas. Mas, a verdade é a única coisa que liberta cada um e se liberta é possível suportar e se suporta tudo fica mais fácil, mais fraco, mais viável. A questão é que nos inviabilizamos a nós mesmos a todo instante com as mentiras, e isso tem por consequência o estranhamento gradativo de nós por nós mesmos. Daí as confusões, os medos, os receios, os encantos desencantados, os desencantos encantados. Não se deve, claro, resumir o homem e seus problemas só e tão somente só nisso. O ser humano é por demais rico, por demais complexo e por demais confuso e contraditório para se dizer alguma coisa com toda a certeza, com toda a calma. Mas esboço aqui apenas um esboço. E esse esboço esboça apenas outro esboço daquilo que presumivelmente pode ser. E se é, não sei, mas aceito que pode ser sim. E entre saber e aceitar há de fato uma distância imensa...

Felipe Ribeiro