segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Daquilo que seria, se fosse.

Que saudades que tenho!
Daquilo que não vivi.
Daquilo que me fez por hora.
A pessoa que não escolhi.
Que saudades que tenho!
Do ontem, que foi o que me fez hoje.
E do amanhã que me fará talvez.
Saudades do hoje não sei se teria.
Por que é nele que o tudo estaria
E quem vive o tudo vive todo.
Vive plenamente, sem idéia de um quase.
E é no quase que existe a saudade.
É no passado que já virou passado
Mas que insiste em ser presente.
É na memória insistente.
Que perfura a vontade.
E que nos deixa ausente, muito tarde.
Do verdadeiro tempo.
Que é o agora, o justamente agora.
Onde existem todas as possibilidades.
Todos os caminhos.
Todas as saudades, para aqueles que não souberam aproveitar,
O presente que a todos se dá,
A todo o momento,
Presente.

Felipe Ribeiro.

ps. Agradecimentos à mola propulsora de minha inspiração para este poema, Leon de Aguiar.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Por aquilo que me faz acordar todos os dias.

Ela sorri.
Não de si ou dos outros, ou para os outros ou para si.
Isso não importa, de fato o motivo é o que menos importa.
Para que motivo para a beleza, para o devir?
Sendo que são eles os que fazem a razão ficar torta,
Não reta,
Não justa,
Não certa.
Mas caminhando por caminhos suaves,
Caminhos de nuvens de possibilidades
De encantos e desencantos ultra-velozes!
O que faz a imaginação voar.
E com ela a liberdade, aquela de imaginar...
Aquela que só existe lá.
Nas noites escuras da alma para o homem de bem
Cansado, atarefado, estafado...
Que não procura seu ópio, não...
Essa liberdade não liberta, só prende na ilusão...
Mas sim que procura na imaginação constante
A criação vibrante
Ofegante, cintilante, nauseante!
Que o tira da degradação, da humilhação
E o torna senhor de si, dos seus sonhos
Da sua própria criação.
E se sua criação escoar para o sorriso dela.
Aquele sorriso singelo, bobo, sem motivação.
Então o mundo se tornará mais belo.
Aquele belo sem demarcação.
Aquela fissura entre o sim e o não
Entre os medos e as certezas mais inoportunas
Aquele que fala direto ao coração.


Felipe Ribeiro.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Carta antiga.

Achei, em meio a bagunça antiga de meu quarto, uma carta endereçada a um amigo de longa data. Na época trocávamos algumas cartas, mas acabamos por concordar que a conversa cara a cara e, se possível, acompanhada por uma bela cerveja, seria mais interessante. Em todo o caso, como não tinha nada em vista para escrever por aqui, irei publicar a carta neste blog.

"Meu caro amigo. Diante de seus questionamentos e surpresas ficou latente em mim a urgência de uma tomada de consciência que antes estava adormecida ou, quem sabe, domesticada a tal ponto que não pude notar certas coisas que me aconteciam a todo o momento. De fato estamos cercados por violência e ela é habitualmente alimentada por um medo ideológico que fora moldado de tal forma a nos parecer conveniente a ponto de chegarmos a ver todas as casas com portões e muros reforçados numa espécie de auto-cárcere privado que garantiria a segurança dentro do inferno conscientemente posto ai para alimentar todo nosso medo.
Engraçado notar que a violência é sempre posta no outro, nunca nos vemos como o agente da violência em si e isso acaba de certa maneira legitimando a própria violência. Ela parece sempre estar em agentes pré-determinados pelo nosso medo que molda o agente legítimo que carregaria todo o mal em potencial, o bandido. Não quero entrar em detalhes psicologizantes mas só quero me ater ao seguinte: Qual é nossa responsabilidade social se hoje tudo o que vemos é uma gradual cultura de isolamento, haja visto por exemplo o fechamento total das casas, seus pequenos feudos ou reinos que são constantemente protegidos porque constantemente ameaçados?
Desde que me enviou aquela carta acabei notando a grande contradição no discurso considerado democrático; aquele mesmo discurso que promete o paraíso na Terra e que vemos geralmente nas propagandas de carros, cerveja e nos programas governamentais de programas sociais que prometem trazer o tal do progresso e com ele a tal da paz. Acredito que a contradição esteja justamente ai: Porque será que a paz é sempre um projeto futuro, sempre é condição e nunca uma regra? Isso realmente me faz pensar se o nosso medo é simplesmente expontâneo ou planejado. 
Já parou para pensar em quantos ilustres inimigos desconhecidos nós selecionamos para nós mesmos? Isso não seria uma forma de banalizar a violência, no sentido de torná-la naturalizada ao ponto de chegarmos mesmo a temer e a criar "alvos privilegiados" que merecem toda a nossa fúria legitimando assim toda nossa idiotice e violência como sendo a mais justa e a mais virtuosa? A justiça não seria uma forma de vingança institucionalizada que garantiria o status quo? Não estaríamos comprando um discurso que nem nos pertence? 
Acredito que toda a promessa de paz ancorada nesse tipo de discurso é uma forma de se manter privilégios e, ao mesmo tempo, uma forma segura e imperceptível de alimentar o medo e a violência, já que nos consideramos alvos centrais em potencial ameaça, acarretando assim uma histeria controlada e interiorizada.
Cada vez mais vejo que a emoção que o medo causa pode ser instrumentalizada como arma política; isso porque ele cria lugares comuns para a legitimação da violência. O medo faz com que sejamos mais crédulos, que aceitemos a primeira via de proteção que aparecer transformando-nos em jogadores atentos e passivos a chantagens políticas como por exemplo o risco real de sermos servos voluntários e instrumentos de sujeição, haja visto que quem tem medo não é livre para saber, escolher e construir por si mesmo a via que melhor manifestará a sua plena convicção.
Isso de certa forma me lembra a tese de Espinosa sobre Deus. Ao contrário de Descartes, que ainda via Deus como o grande arquiteto do universo, Espinosa via Deus como uma força que se manifestava na natureza e, todavia, em nós mesmos. Deus é uma potência segundo sua tese; uma força criadora e nós somos efeitos desse potencial criador e, ao mesmo tempo, temos essa potência criadora em nós, mas limitado pela própria lei natural. Eticamente falando essa potência criadora se chama alegria. Tudo que se liga a alegria é passível de criação, de transformação e, consequentemente, tudo que se liga a tristeza, como nossos medos, é passível de passividade que não cria e que só aceita justamente porque o medo tira a vontade de criar e de se transformar.
Veja então o poder do medo meu caro! Veja como ele pode ser um instrumento poderoso de vigia, punição e disciplinarização! O terror propagado inconscientemente em nós pela promessa de nossa paz ainda não adquirida tende a aniquilar a nossa singularidade, não nos dá o espaço necessário de uma construção crítica fundamentada em uma lógica despregada da lógica do medo que é alimentada constantemente; esse mesmo medo que nos fascina e que nos impede de nos fascinar por coisas mais amenas como a simples alegria das coisas simples que estão a nossa volta e que nos prometem apenas a felicidade momentânea, e nada mais. E por que quereríamos mais?
Um abraço fraterno, de seu amigo Felipe Ribeiro."


Felipe Ribeiro

sábado, 8 de dezembro de 2012

A reserva.

Há uma reserva em todos nós que aparece às vezes como a última força ou maneira de continuar. Quando se chega nessa reserva nós nos reservamos de nós mesmos. Nós colocamos de lado tudo aquilo que carregamos como reconhecimento daquilo que somos, pelo menos para nossa própria compreensão daquilo do que de fato somos para nós mesmos, para vivermos no limite doce e incompreensível do insondável e tênue destino. É o ponto em que não delimitamos aquilo que queremos como sendo o caminho, mas o próprio caminho como sendo o delimitador daquilo que colocamos como querer. É viajar apenas olhando a paisagem sem se preocupar com a ida e com a chegada. É reservar o direito de se encantar ao menos uma vez e deixar extinguir tudo o que nos prende ao hábito maldito de estar certo o tempo todo para com aquilo que se quer ser ou fazer ou crer. Somos ardilosamente tiranos de nós mesmos quando delimitamos tudo o mais por nossos gostos, por nossos saberes, por nossas sugestões medíocres e sem sentido. É nessa reserva que deveríamos nos colocar. Naquele ponto quase intocável da nossa mente ou do nosso coração em que sabemos de fato o que fazer, apesar do grande medo, do grande receio habitual que nos impede de tentar. É ali, ou é quando, que um dia todos e suas consciências vão se encontrar e se perguntar: Continua com isso ainda?


Felipe Ribeiro



quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

As faces.


Ora, há momentos que são mágicos, ou, ao que parece, ficamos mais atentos à mágica que existe em todos os momentos. Presenciei um desses momentos agora a pouco com um velho amigo tomando algumas num boteco digno de confiança. Falávamos sobre tudo e sobre nada. Nossa ignorância ficou mais que latente quando resolvemos, por um instante, pensar sobre tudo. Não sei quanto a ele, mas em um primeiro momento isso me deixou bastante assustado, haja visto que eu, em quase todos os momentos em que estou consciente, aceito e acredito que saiba de fato sobre alguma coisa. Em um segundo momento me senti, de fato, bastante aliviado ao aceitar minha completa ignorância, não só sobre o que pensávamos no momento (que era sobre de fato tudo, desde física quântica temperada com bastante sabedoria popular até espiritismo e sobre o cara barbado que chamamos de Deus) mas como também sobre, num piscar de olhos, tudo o mais. Foi um instante apenas e me deixou num estado de desligamento atento. Desligamento atento é o nome que eu dou para aquele estado em que seus pensamentos se esparramam tanto sobre algum assunto que você simplesmente o perde no meio dos devaneios, não pensa mais sobre o pensar, nem pensa mais, só sente até onde sua mente foi e sente com isso a completa ignorância e ao mesmo tempo a completa concretude da vida, o completo assombro... Esse assombro me trouxe uma espécie de saudades, ou melhor, uma volta aos tempos em que eu acreditava em tudo e não naquilo que eu supostamente sabia e creditava todas as minhas esperanças, escondia todos meus medos e dava as mãos para uma ilusão tão fielmente criada que compensava qualquer tentativa de recriminação da minha boa-fé; aos tempos de infância talvez em que não se preocupava em ter razão mas antes em se ser sonho, em se ser sem ao menos saber que se é. Esses raros momentos, tão necessários talvez, mostram como estamos fatigados por carregar tantos pré-conceitos, tantas máscaras e falsos caminhos, falsos passos rumo a um destino certo de face errada. As faces... Essas faces não aguentam a simples confrontação da mente com a verdade individual. Aquela verdade que é nua e que se desnuda na medida em que não aceitamos mais ser o que não somos mas que, obcecados pelo medo, tanto necessitamos ser. Essa necessidade que é criada, alimentada e valorizada na grande maioria das vezes nos impõe uma ditadura individual, uma ditadura voluntária, em que todas nossas forças são suprimidas pelo medo e pela angústia de não se tornar aquilo que teoricamente e culturalmente se é o mais adequado. Minhas forças foram suprimidas pela beleza amarga de desfrutar minha própria ignorância. Pelo menos momentaneamente, até me readequar, preguiçosamente, àquilo que, como um vício, me torna não mais do que aquilo que minha falta de fé espera que eu seja.


 Felipe Ribeiro

domingo, 25 de novembro de 2012

De lá para cá.

Voltei. Na verdade sempre estive por aqui, mas como bom relapso que sou havia esquecido a senha desse blog, a senha de acesso ao email para esse blog e o próprio email para acessar o blog. Houve um ano de desligamento total para com os meus escritos. De lá para ca, se é que alguém queira saber, estive trabalhando, trabalhando e, já mencionei que estive trabalhando? Ainda continuo na livraria, o que é bom. Conheci de lá para cá muitas pessoas, bebi de muitas fontes, saboreando algumas detestando outras... O que não me impediu de experimentar. Pessoas são coisas raras e banais ao mesmo tempo. Raras por serem apenas elas mesmas, fenômenos interessantes e ao mesmo tempo únicos; apesar de tão parecidos. E a banalidade está justamente na preguiça do observador em não notar essa raridade tão peculiar de cada pessoa. Digo preguiça para não falar preconceito, o que na minha singela opinião é a mesma coisa. A preguiça é a falta de coragem, como diriam os antigos. E não vejo nenhum conceito para preguiça que não seja tão exato. Coragem vem de coração, de vontade. Colocar o coração para observar os outros exige, além de uma bela dose de respeito, muita força de vontade. E isso não se cultiva todos os dias. É por hábito que lidamos com as pessoas, quando teria que ser com o coração. Por hora, tento, mas muito mal e porcamente, lidar com isso de uma maneira menos egoísta e mais solidária, doando ao outro a atenção e o tempo que são tudo o que uma pessoa tem de fato no mundo. Desde já, para o público que costumava ler meu blog (alguns poucos e amigos por doarem seu tempo nisso), meus agradecimentos e desculpem pelo retorno.


 Felipe Ribeiro.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Liberdade ainda que tardia...

É incrível minha falta de fé. Mais incrível ainda é constatar que eu me surpreendo com ela. Porque quando nossa fé é testada algo acontece que nos faz ficar abobados, imbecilizados pela certeza férrea que vai nos deixando, escorrendo pelas mãos. Essa mesma certeza que nos faz ser tão cegos ao ponto de não acreditar em nada que os olhos não possam ver, em nada que os sentidos não possam sentir, em nada além que possamos crer. Essa mesma certeza que nos faz ser tão prepotentes e ao mesmo tempo tão dependentes, tão seguros de nossa segurança ilusória que nos faz ser sempre inseguros a tudo que nos escapa, tudo que ultrapassa os limites estipulados pela simples fé que foi testada, experimentada, tornada sensível no campo do consciente. Porque não crer se nós não estamos na condição de saber? Sabemos mesmo ou achamos por acaso que sabemos? O que é o saber senão uma fé disfarçada, apequenada nas condições impostas pelos sentidos mais densos, mais ridiculos e superficiais? Ter fé é ter a coragem de confiar no invisível, no insondável, no indescritível, no insustentável... E quantos de nós não a temos e nem ao menos sabemos? Dependemos dela e nem notamos, guiamo-nos por ela e confundimos com livre arbítrio... E o que é essa mesma liberdade a que todos almejamos senão a vontade imensa de ser enfim sem as dependências todas que nos tolhem e nos agridem a todo instante? E se eu disser que somos livres, sempre o fomos, acreditariam? Alguns sim, e nem precisariam de provas, outros não e me estenderiam as mãos como pedintes por um punhado de provas que satisfariam suas necessidades de paz. Ai vai a prova: Você pode acreditar, ter a fé nisso e ser livre, ou não. Quer maior liberdade? O que nos impede de sermos livres são os receios, os medos, ou, simplesmente, um mal entendido que nos faz pensar que liberdade é o mesmo que libertinagem. Liberdade advém uma grande responsabilidade e nem todos estão aptos a responder por tudo o que fazem ou deixam de fazer... Por isso preferem esquecer e delegar toda a responsabilidade que lhes cabem em órgãos competentes, em autoridades, em celebridades que ditam as normas, as regras, que norteiam e facilitam suas escolhas. E suas escolhas se tornam o reflexo da sua falta de coragem em confiar em seu discernimento próprio. e meu próprio discernimento me diz: Tenha fé, pois és livre.

Felipe Ribeiro.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O limite do si.

Sofrer é tentador... Ser feliz é uma escolha pra lá de dolorosa. Niguém neste mundo consegue a paz sem levar consigo uma dose de completa insegurança. É no contrário que se busca o certo, e é essa contradição que faz dos homens homens. Um gato não sabe de nada disso, mas, no entanto, ele cumpre seu papel de gato sem ao menos perceber que o faz. O homem tem seu papel também, mas entre ele e o seu cumprimento estão as escolhas. Talvez seja o homem isso, as escolhas que ele faz. E toda escolha abre um campo ilimitado de novas perspectivas, novos meios, novos medos, novos tombos e novas conquistas. Tudo é uma questão de como encaramos o tudo que escolhemos viver. E quando digo que sofrer é tentador não falo de uma teoria abstrata, mas sim na prática. As paixões nos assolam o tempo todo e com elas vem as correntes, as jaulas douradas que nos enganam o tempo todo, que nos tolem e nos faz achar que os limites não são ultrapassáveis. Isso é sofrer, sofrer no gozo, pelo gozo, para o gozo. Ser isso não faz do ser um ser completo, mas antes um ser que busca eternamente a paz. Pascal mesmo já dizia que a vida do homem é isso, aventurar-se para logo cair no tédio. A felicidade é um parto. É dolorosa porque nela há muita renuncia de si. E renunciar-se é mais dificil do que parece porque há na maioria das pessoas o hábito de serem caprichosas, vaidosas, completamente egocentricas e com isso há o enfraquecimento da vontade de ser mais do que se é, porque o limite é sempre imposto pelo desejo de ter atentido tudo o que se quer ser ou ter. Só se é verdadeiramente quando não se é, ou seja, é o contrário do que achamos que somos. É o belo, é a bondade, é o fruto de uma escolha certa que vai contra nossos principios animalescos e egoistas... Como é bom saber disso e como é melhor fazê-lo.


Felipe Ribeiro.

domingo, 26 de junho de 2011

Ar rarefeito.

Quando você desiste acontece algo no minimo anormal. Você se encontra de repente numa paz interior que te deixa num estado de letargia, num estado em que nada mais pode te atingir. E daí se eu perder o ônibus? Já o havia perdido mesmo... e daí se eu chegar atrasado em casa? O que iria fazer? Muito provavelmente dormir e acordar de manhã pra mais um dia de serviço... Sabem, a rotina chega a um estado que não mais massacra porque já não sobrou nada para massacrar de você. Então, esse estado de paz interior faz com que você se anestesie... Não sei se é ruim, mas quando isso acontece um zumbido aparece sempre no meu ouvido esquerdo, interessante... Acho que é um processo natural de sobrevivência social que impede a pessoa de explodir e cometer alguma besteira. Natural? Tenho minhas dúvidas... O medo é natural, mas como eles trabalham com esse medo é completamente artificial e cruel. te impelem o tempo todo a ser o que se pode ser, o que é designado para se ser e isso vira uma bola de neve que acaba esmagando de fato aquilo que você de fato é, ou seja, aquilo que no intimo você se preocupa em preservar e que a maioria das pessoas nem fazem muita questão de saber. Tudo isso somado ao pavor da rejeição social facultam a uma atmosfera no minimo asfixiante. A maioria das pessoas já se acostumaram com esse ar rarefeito. E quando ele quase acaba vem a paz interior, o dispositivo automático que impede a pessoa de explodir e ganhar a verdadeira dignidade que lhe foi tirada ao preço de uma provável rejeição social, a uma provavel falta de dinheiro, a uma provavel demissão por justa causa, a um provavel deserdar de seus pais, enfim, a toda uma gama de prováveis que provavelmente podem acontecer muito provavelmente. A verdade que nos dizem é que o ar sempre foi rarefeito nesse mundo. Poucos conseguem de fato respirar verdadeiramente. Respirar verdadeiramente é respirar a plenos pulmões, é se sentir pleno de saúde física, mental e o escambau. Mas a verdade é que existe ar pra todo mundo, as pessoas é que acham que existem pouco, e esse pouco que tem é disputado por todos os narizes possíveis. É essa sensação de peso que acompanha todos as pessoas, essa sensação de que o ar pode acabar a qualquer instante e você morrer de sufocamento... Entendem? Acho que estou falando besteira, afinal nos ensinam que devemos nos tornar melhores naquilo que fazemos sempre, nunca parar no caminho, nunca ficar satisfeito com o que tem e com o que se faz com o que se tem, ou seja, com o que se é de acordo com a perspectiva do que se tem, e que tudo isso dignifica a pessoa. O que vem a ser dignificar um ser humano? O que é dignidade? Qual regra você tem de seguir para se tornar digno? Existe alguma regra? E o que vale a dignidade se o jogo que ai esta é completamente insano e indigno? Sim, sim, vou compartilhar a minha dignidade com as pessoas dando um exemplo de cidadania, vou pagar meus impostos porque sou digno, vou trabalhar porque sou digno, vou consumir porque sou digno... A pergunta é: Por que sou digno? Porque tenho que respirar o pouco ar que dizem existir e que nos deixam respirar, tenho que ser digno de respirá-lo para sobreviver e conseguir alcançar a tão sonhada vitória na minha vida... E daí... sim, e daí estarei em paz, com a consciência limpa de que eu de fato vivi dignamente... Consegui sobreviver. Estranho, o zumbido no meu ouvido esquerdo está aparecendo de novo enquanto escrevo isso... Eu desisti, internamente. O fato de eu continuar com meus afazeres e continuar simplesmente não demonstra uma hipocrisia... Demonstra uma vitória, porque eu consigo respirar a plenos pulmões. A plenos pulmões, estou em paz, a plenos pulmões no ar rarefeito que me deram a respirar, a plenos pulmões... Pois a liberdade se encontra sempre à disposição de quem a quer vivenciar, mesmo estando atado o ser livre é livre em qualquer estado. Não tenham medo de respirar... Há ar para todos.

Felipe Ribeiro.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Desculpem por isso, parte 2.

Perguntaram-me porque não ando escrevendo mais no meu blog. Porque não tenho o que escrever, talvez. Porque deveria? Quem sabe? Eu não sei de nada. Apesar disso ando contente. Não, talvez seja apenas o velho tédio que voltou depois de alguns anos de profunda tristeza. Nesses anos eu escrevia muito, confesso. Não porque eu tinha o que escrever, mas talvez porque eu necessitava escrever, necessitava extravazar. Agora não tem nada para extravazar, já extravazou. Extravazou porque a jara estava quebrada e tudo que estava dentro escorreu para fora, agora só sobrou os cacos e os remendos que não foram muito bem remendados. Enfim, apesar disso tudo eeu juro que me esforço para escrever um texto inteligente, um texto ácido, um texto enfim que me exponha de uma maneira favorável no cenário daqueles que se dizem escritores. Sim, eu sei, ridículo, eu sei, os escritores. E os que acham que o são então, melhor nem dizer. Eu acho que sou um desses que pensam que são escritores. Eu não sou, apesar de gostar de escrever. Aliás, sobre o que eu estou divagando? Agora mesmo me peguei numa indisposição absurda, aliás, estou com ela agora enquanto tento escrever alguma coisa aqui para as poucas pessoas que sentem a falta dos meus escritos, se é que sentem. Nunca consegui entender as pessoas, nunca pensei em termos do tipo "essa pessoa é hipócrita" ou "essa pessoa é honesta". Sou muito burro para pensar assim, e demasiado despretencioso para tanto. Penso nas pessoas em apenas um único termo que nem sei bem ao certo se é o mais válido. Não, na verdade nem isso. Não, na verdade não mesmo. Ando cansado, sei disso. Porque ando cansado? O mundo grita pela justiça, há coisas horriveis e belas ai para serem escritas, há coisas lindas e belas que ainda me chocam, há coisas tristes que me fascinam, ou seria o contrário, nunca sei. Talvez o que me falte é a emoção. Emoção vem do latim que significa mover-se. O que me faz mover agora não é bem uma vontade, mas sim a própria inércia do que foi um dia uma vontade terrível de escrever. Essa mesma inércia, que é a tendência de os corpos que estavam em movimento continuarem em movimento, esta se extinguindo aos poucos. Tenho um emprego, confere. Amo uma mulher, confere. Tenho saúde, confere. Tenho amigos, confere. Não devo na praça, confere. Tenho uma família, confere. Todas as coisas boas da vida me acusam e me fazem tremer de emoção quando penso que poderia ser pior. Isso é assustador, pensar no pior. Lógico, sempre é assustador. Mas, estou perdendo de novo o fio da meada... O que eu quero dizer é que não tenho motivos para me entristecer. E a tristeza me faz uma falta danada. Vai entender! Talvez eu tenho é saudade do tempo que eu tinha disposição para escrever sobre qualquer coisa, sem pretensão alguma. O grande problema hoje é que eu preciso de alguma pretensão para escrever, porque é uma necessidade eu me tornar útil, porque eu me sinto um inútil. E a bem da verdade, quando eu era de fato um inútil, e não como hoje que eu só me sinto um, me sentia muito mais livre para escrever. Melhor dizendo: Agora que sou útil para a sociedade porque eu trabalho, porque eu amo, pago minhas dívidas, não dou trabalho para minha familia, tenho uma saúde impecável e sou aquilo que dizem ser o objeto social do homem de bem me sinto podre por dentro a tal ponto de não ter nada para escrever. Uma amiga me disse que eu estava possuido hoje. Deve ser o verme da comodidade, o parasita da normalidade que se instalou em mim e que esta a comer velhos ímpetos de criatividade e a cagar sonhos que antes eu não tinha, como por exemplo entrar com um financiamento de uma casa, ajuntar dinheiro para não me preocupar futuramente, contar os anos para minha aposentadoria... E minha amiga acertou em cheio: Onde esta o Felipe? Aquele felipe chato, carrancudo, calado, machista, idiota, hipócrita, mentiroso, bêbado, triste, sofrido, miserável, mas que tinha a sua alma intacta e a sua liberdade de expressão, porque tinha o que expremir? Não sei. Confesso que não sei. Mudei, para melhor, o que me tornou pior. E não tem culpados, não tem inocentes. O que se tem é isso. Fato. Desculpem por isso, outra vez.


Felipe Ribeiro.