É um milagre eu conseguir escrever nesse blog. Algumas situações só tendem a comprovar o quanto sou um analfabeto digital. Dentre elas o fato de as pessoas falarem com a maior calma que irão baixar a tal música ou o tal filme, que não vão comprar cds nem dvds porque já estão no site e coisa e tal. Eu tenho uma inveja danada dessas pessoas. Eu ainda compro cd, ainda alugo dvd e me orgulho de dizer que não sei mexer muito bem na internet. Sou da época em que baixar música era sinônimo de comprar uma fita K7, sintonizar a rádio e esperar a música aparecer e gravar. Isso com bastante reza para que o tal do locutor não se intrometesse no meio da música. Sou da época em que se comprava fita VHS e gravava os filmes que passavam na Globo, na Manchete, no SBT, na Bandeirantes... Gravava com o maior cuidado, quando surgia o intervalo pausava e quando recomeçava apertava o REC. Época boa, não muito prática, mas muito boa. Uma merda, mas era bom. Hoje é bom, mas é uma merda para mim parafraseando o grande filósofo Tom Jobin. Não sei ao certo, mas tudo que é facilidade nos dias de hoje não me atrai nem um pouco. Agora a onda é o tal do Ipad, ou algo que o valha. Parece um totem no qual todos prestam veneração. Eu ainda prefiro um livro, as árvores que me perdoem. Prefiro escrever cartas também, detesto emails, acho o fim do mundo alguém me dizer que não tem tempo para escrever cartas, mas para ficar o dia todo na internet como um morto-vivo escrevendo o que acabou de fazer no tal do Twitter ou facebook ou não sei o que, isso tem. Alias, fiz um twitter a uns dois anos atras, só escrevi uma frase e desisti. Não entendi aquilo. E tenho orgulho de dizer isso. Aliás, orgulho é a única coisa que me resta, a única arma que eu tenho. Um vizinho meu de nove anos ao ver um disco de vinil disse alarmado: "Nossa, que cd gigante!" Tive orgulho em lhe explicar o que era aquilo, e ainda consegui me enrolar na tecnologia analógica. Meu celular por exemplo era de um tio meu que sobrou e me deu. É um modelo "velho" de sete anos. "Sete anos! Que absurdo! Ainda funciona?" As coisas não foram feitas para durar hoje em dia, as memórias também não. As pessoas só pensam pra frente, no que vai melhorar, na novidade e coisa e tal. Melhorar o que? Já não está bom o suficiente? Para mim já passou de bom, já ficou desnecessário. As pessoas fazem de um tudo de uma vez só, são dinâmicas, não têm tempo a perder em coisas que não sejam práticas... "Pra que fazer isso assim, vai demorar... Use o Tab, vai mais rápido!" E com isso eu ganho dois segundos, um tempo precioso demais para ser perdido. O secretário municipal de não sei o que da minha cidade (acho que de trânsito e transportes) estava falando para a televisão as justificativas para a construção de um viaduto no cruzamento de duas avenidas movimentadas da cidade, entre as justificativas destacou-se a incrível preocupação com o tempo em que o motorista fica parado no semáforo: dois minutos. Se as pessoas do dia de hoje conseguem se angustiar com um segundo perdido ao não usar a tecla Tab imagina dois minutos no semáforo... Eu fico imaginando o que as pessoas ultra dinâmicas fariam em dois minutos... Acabariam com a fome no planeta? Achariam a cura para as piores doenças? Não! No máximo enviariam piadas por email, escreveriam no twitter sobre o ovo cozido que ficou mole, assistiriam a um filme pornográfico ou, quem sabe, o que é pior, escreveriam num blog sobre toda essa ilustre porcaria.
Felipe Ribeiro
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
livros e mais livros.
Ora muito bem, comecei a trabalhar enfim num ambiente em que eu gosto muito: uma livraria. O problema é que com as livrarias, se é que posso chamar isso de problema, aparecem alguns livros que me fazem pensar muito no porque alguém publicaria tal e tal obra. Por exemplo, um livro que explique algum outro livro de sucesso que nem é tão complicado de se entender obviamente que irá atrair pessoas que não conseguem entender o óbvio. Essa semana tive o prazer de me encontrar com uma dessas não tão raras pessoas que me pediu um livro que era a explicação de um livro que era, por sua vez, a explicação de um outro livro que, por sua vez, nem era tão dificil assim de se entender. Sugeri a essa pessoa que comprasse o livro que foi alvo de duas publicações a seu respeito na tentativa de explicá-lo. Pensei comigo, porque algum autor irá escrever algum livro para só depois escrever outro para explicar o primeiro? Por que não escrever logo de uma vez um livro mais claro? A resposta, obviamente, é que a maioria desses autores escrevem muito para venderem muito e a lógica é simples, os autores tratam as suas próprias inspirações como sendo um produto. O problema dessa lógica é que com ela arrastam-se uma multidão de consumidores famintos por coisas novas e com isso obras que são escritas no intuito de explicar outras retiram dos próprios leitores a responsabilidade e a capacidade de compreensão da própria obra. A sessão de auto ajuda que o diga! Mas é uma experiência que considero de suma importância pois estou percebendo que numa livraria entram pessoas de todos os tipos e que tem gostos de todos os tipos porque ali se encontram livros de todos os tipos escritos por autores de todos os tipos. Você é o que você lê, mas muito mais, na minha opinião, aquilo que você procura ler, ou seja, o motivo de estar lendo isso ou aquilo. E os motivos são infinitos assim como são infinitas as possibilidades que cada pessoa carrega consigo de se melhorar ou não, e isso significa, na minha opinião que, por sua vez, não significa nada, ler por curiosidade e não por comodismo, ler por impulso e não porque simplesmente o livro x ou o y é o mais vendido e o mais positivamente criticado. Felizmente existem muitas pessoas assim, que procuram, fuçam, que simplesmente abrem o livro na primeira página e começa a lê-lo sem o auxílio de axiomas de alguns críticos literários ou de vendedores que estão lá para auxiliar na venda. Em suma, o que se está em questão aqui é a autenticidade da motivação de cada um, se ela pertence de fato a cada um, se ela nasceu da simples curiosidade autêntica, aquela que brota do fundo do ser e que reflete como ele é possibilitando assim a essa autenticidade se refletir nas escolhas de cada um que por sua vez acabam refletindo na postura que cada um carregará diante da vida, diante da feitura do seu próprio destino.
Felipe Ribeiro
Felipe Ribeiro
domingo, 7 de novembro de 2010
Verbo transitivo direto.
Por falar em não entender e não explicar...
Por falar em coisas que nós sabemos e muito bem, e sem pensar...
E que ao mesmo tempo nem sequer sonhamos em sonhar...
Que sendo tão real ultrapassa o próprio imaginar...
Um fato, simples...
Irredutível, eterno...
Que eu chamo de amar...
Lembrei de súbito que hoje ao acordar...
Tive a impressão de ali não estar...
Pois o meu coração pretendia viajar...
Até onde você poderia se encontrar...
Em qualquer lugar...
Se tivesse você seria "o" lugar...
Se tivesse você seria especial esse ali estar...
Se tivesse você seria inesquecível esse ali...
E só falo do ali...
Só falo do chão onde você poderia pisar...
De você, em si, nem ouso falar...
Pois de você eu no máximo posso calar...
Porque a língua que eu deveria explorar...
Para descrever ao menos um pouco do seu olhar...
Não pode ser falada, nem ouvida, nem escrita...
Só sentida...
Gozada, suprimida...
Em toda a minha memória, em todos meus atos, em todo meu ser...
Estar...
Permanecer...
Ficar...
Mudar...
Aceitar...
Crer...
Respirar...
Existir...
Perecer...
Renascer...
E desse ciclo constante a que chamo de vida...
Você seria tão e tão somente só a partida...
Você seria o trajeto, o caminho, a ida...
A volta, a chegada, a despedida...
De tudo que ainda impuro perduraria...
De tudo que eu poderia me trair, me arrepender...
Você seria meu verbo transitivo direto...
Sem escalas, de rumo incerto...
Mas tomado de certezas vãs que não poderia aqui explicar...
Que não poderia aqui compreender...
Só certeza, e nada mais...
Nem do que, nem do quando, nem do como...
Só certeza, e nada mais.
Felipe Ribeiro
Por falar em coisas que nós sabemos e muito bem, e sem pensar...
E que ao mesmo tempo nem sequer sonhamos em sonhar...
Que sendo tão real ultrapassa o próprio imaginar...
Um fato, simples...
Irredutível, eterno...
Que eu chamo de amar...
Lembrei de súbito que hoje ao acordar...
Tive a impressão de ali não estar...
Pois o meu coração pretendia viajar...
Até onde você poderia se encontrar...
Em qualquer lugar...
Se tivesse você seria "o" lugar...
Se tivesse você seria especial esse ali estar...
Se tivesse você seria inesquecível esse ali...
E só falo do ali...
Só falo do chão onde você poderia pisar...
De você, em si, nem ouso falar...
Pois de você eu no máximo posso calar...
Porque a língua que eu deveria explorar...
Para descrever ao menos um pouco do seu olhar...
Não pode ser falada, nem ouvida, nem escrita...
Só sentida...
Gozada, suprimida...
Em toda a minha memória, em todos meus atos, em todo meu ser...
Estar...
Permanecer...
Ficar...
Mudar...
Aceitar...
Crer...
Respirar...
Existir...
Perecer...
Renascer...
E desse ciclo constante a que chamo de vida...
Você seria tão e tão somente só a partida...
Você seria o trajeto, o caminho, a ida...
A volta, a chegada, a despedida...
De tudo que ainda impuro perduraria...
De tudo que eu poderia me trair, me arrepender...
Você seria meu verbo transitivo direto...
Sem escalas, de rumo incerto...
Mas tomado de certezas vãs que não poderia aqui explicar...
Que não poderia aqui compreender...
Só certeza, e nada mais...
Nem do que, nem do quando, nem do como...
Só certeza, e nada mais.
Felipe Ribeiro
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Confusões e Contradições.
Há pessoas que confundem a mudança de opinião com uma possível contradição. A questão é mais complexa, porque essa confusão se dá justamente porque se confunde fidelidade com imobilidade de idéias, o que, a meu ver, nada mais é que um passo para o fanatismo. Acredito que mudar de opinião não seja uma contradição, seria, antes, uma prova cabal do que se decidiu de fato ser ou seguir ou fazer. Toda decisão é uma renúncia, pois se você decide você renuncia alguma escolha em prol de outra ou em detrimento de outra. Contradição não seria não saber o que se quer ou o que se pretende ser, isso é simplesmente ignorância de si mesmo. Contradição é, antes, uma espécie de traição, é você se trair sabendo que se trai, é você mentir para si e para os outros, sabendo que mente, mesmo que seja em prol dos outros ou em detrimento dos outros. E o que mais posso observar é uma onda de contradição, para não dizer mentira, invadindo o cotidiano silenciosamente, sutilmente, imperceptivelmente... É o amigo que lhe diz ser especialista em mulher quando, todos nós sabemos, nem mesmo as mulheres são especialistas nelas mesmas; é o sujeito que se mata no trabalho, que só lhe traz humilhação para a alma, mas que mesmo assim é fiel à imagem de bom cidadão que tenta e busca passar... A contradição está solta e com ela há apenas e tão somente desespero na medida em que não se pode mais controlar o próprio querer, a própria vontade. Em resumo, a mentira leva a mais mentira e, consequentemente a mais e mais prisão da própria vontade, o que os mentirosos não conseguem ver simplesmente porque confundem o ato de mentir com o ato de ser esperto que o engano consequente dessa mentira pode causar. Ser esperto, aliás, é outro predicado caro nos dias de hoje. Um predicado, ao que tudo indica, neutro, amoral, sem cor, apenas refletindo a vontade cada vez mais dependente de mentiras da pessoa que utiliza essa qualidade. Um ato de liberdade seria portando a verdade, tão somente a verdade. E se dizem que a verdade dói é porque não estamos acostumados com ela. A verdade dói mas a mentira destrói. Outra confusão que a maioria das pessoas tendem a fazer... Nem tudo que dói é destrutivo, mas tudo que é destrutivo sempre dói, e muito mais no fim das contas. Outra confusão é entre prazer, gozo e paz. Ter paz não significa propriamente ter prazer, a paz é alcançada, na maioria das vezes senão em todas, pela busca individual da verdade de cada um. E essa busca pode significar dor, renúncias dolorosas. Mas, a verdade é a única coisa que liberta cada um e se liberta é possível suportar e se suporta tudo fica mais fácil, mais fraco, mais viável. A questão é que nos inviabilizamos a nós mesmos a todo instante com as mentiras, e isso tem por consequência o estranhamento gradativo de nós por nós mesmos. Daí as confusões, os medos, os receios, os encantos desencantados, os desencantos encantados. Não se deve, claro, resumir o homem e seus problemas só e tão somente só nisso. O ser humano é por demais rico, por demais complexo e por demais confuso e contraditório para se dizer alguma coisa com toda a certeza, com toda a calma. Mas esboço aqui apenas um esboço. E esse esboço esboça apenas outro esboço daquilo que presumivelmente pode ser. E se é, não sei, mas aceito que pode ser sim. E entre saber e aceitar há de fato uma distância imensa...
Felipe Ribeiro
Felipe Ribeiro
sábado, 2 de outubro de 2010
Ao coração.
O socorro que precisamos está ai...
Do lado, em cima, em baixo...
À frente, atrás...
Em todos os lados...
O que é dificil de se notar é isso,
Justamente isso,
Que enquanto respirarmos haverá mudança.
Enquanto respirarmos haverá vontade.
Haverá confiança
Haverá coragem...
E porque não?
Porque temos de esperar?
Porque precisamos tanto de amparo?
A vida é isso, uma eterna exigência do acaso.
E exige apenas a nossa coragem particular...
Aquela força intima que nos faz mexer
Nos faz mudar
Nos faz ser
Mais e mais a causa a que amar...
E por que não?
Por que há o muro e o obtuso
Porque há de se ter o medo e o excluso?
Porque há de haver a tal da comparação?
A tal da diferenciação?
A tal da confusão?
Se o que nós sabemos de nós mesmos é um eterno não...
Um eterno talvez...
Um suposto quem sabe?
Um dilema reles, de uma pequenez...
Que nem ao menos nos cabe!
E porque não?!
Porque não colocar o dedo em riste?
Encarar o que nos sufoca...
Encarar o que nos faz triste...
E o que nos aborta?
Aniquila, rasga...
Mutila e afrouxa?
Porque perdemos a fala?
Quando mais precisamos, em nome do amor, discorrer?
Porque perdemos as lágrimas?
Quando mais elas não precisam escorrer?
E porque não, quem sabe?
Porque não?
Se o não mesmo é o que nos afirma!
Que nos liberta da tirania do sim inconsciente...
Daquele sim do medo, do inocente...
Da vítima constante da alheia cobiça...
De nós mesmos no fundo, que não é tão fundo...
Já que superficial, pertencente ao ilusório mundo...
Onde tudo é quase...
e quase é o tudo...
Porque não?
Porque quase!
Porque quase?
Porque não...
Simplesmente...
não.
Felipe Ribeiro.
Do lado, em cima, em baixo...
À frente, atrás...
Em todos os lados...
O que é dificil de se notar é isso,
Justamente isso,
Que enquanto respirarmos haverá mudança.
Enquanto respirarmos haverá vontade.
Haverá confiança
Haverá coragem...
E porque não?
Porque temos de esperar?
Porque precisamos tanto de amparo?
A vida é isso, uma eterna exigência do acaso.
E exige apenas a nossa coragem particular...
Aquela força intima que nos faz mexer
Nos faz mudar
Nos faz ser
Mais e mais a causa a que amar...
E por que não?
Por que há o muro e o obtuso
Porque há de se ter o medo e o excluso?
Porque há de haver a tal da comparação?
A tal da diferenciação?
A tal da confusão?
Se o que nós sabemos de nós mesmos é um eterno não...
Um eterno talvez...
Um suposto quem sabe?
Um dilema reles, de uma pequenez...
Que nem ao menos nos cabe!
E porque não?!
Porque não colocar o dedo em riste?
Encarar o que nos sufoca...
Encarar o que nos faz triste...
E o que nos aborta?
Aniquila, rasga...
Mutila e afrouxa?
Porque perdemos a fala?
Quando mais precisamos, em nome do amor, discorrer?
Porque perdemos as lágrimas?
Quando mais elas não precisam escorrer?
E porque não, quem sabe?
Porque não?
Se o não mesmo é o que nos afirma!
Que nos liberta da tirania do sim inconsciente...
Daquele sim do medo, do inocente...
Da vítima constante da alheia cobiça...
De nós mesmos no fundo, que não é tão fundo...
Já que superficial, pertencente ao ilusório mundo...
Onde tudo é quase...
e quase é o tudo...
Porque não?
Porque quase!
Porque quase?
Porque não...
Simplesmente...
não.
Felipe Ribeiro.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
A tal da fé.
Já cheguei a diversas conclusões em minha vida, todas de uma profunda contradição interna que beirava o absurdo. Logo vi que o absurdo também era outra conclusão contraditória, talvez pelo fato mesmo de não ser nem ao menos uma conclusão, apenas e tão somente uma espécie de placebo para minha mente, um remédio inventado pela força da fé que carregava em mim e que não tinha a coragem de conceber.
Há alguns anos pensava muito sobre qualquer coisa a ponto de chegar a conclusões racionais puramente fechadas sobre si mesmas mas de tamanha coerência que me assutava o fato de eu ter razão sobre algumas coisas. De fato me assustava porque não poderia aceitar aquilo como aquilo se mostrava, com a sua coerência fria, infecunda, cortante, prática, egocentrica e fechada. Alguma coisa gritava silenciosamente para minha consciência dizendo que não era só aquilo, não poderia ser só aquilo. Essa voz vinda de algum lugar foi me irritando ao ponto de eu apenas escutá-la e nada mais. Dei o braço a torcer para ver o que aconteceria. Pari minha fé nesse dia, dei nome a ela, comecei a cuidar dela depois de um longo tempo de gestação. Era um ser estranho, nunca havia o visto mas confesso que não teria como ser mais familiar para mim. Saiu de mim e me disse: "Até que enfim! Andemos juntos agora, sem eu pesar a você e sem você pesar a mim!" E foi nesse ponto que a coerência espantosa do mundo e todo o seu mistério aparente começaram a fazer algum sentido, mesmo que ainda não entendido, para mim. Foi então que reparei que a maioria das pessoas carregam sua fé como um peso morto. Algumas jogam fora a fé pelo caminho para se sentirem mais leves, mas logo em seguida procuram desesperadas por ela. Outros jogam tudo em cima da pobre fé, sobrecarregando a ela e a si mesmos. Alguns tem tamanho respeito por sua fé que a deixam sentada num altar e prestam culto a ela, engordando-a e deixando-a sedentária. Outros andam com ela, caminham com ela, são um com ela. A minha anda agora fora de mim, mas caminha perto de mim, as vezes me chama para eu ver alguma coisa, as vezes eu a chamo para me ajudar em outras. Deixo-a livre para que ela se fortaleça por conta, deixo-a por conta para que a confiança nela se estabeleça fortemente. Acredito nas coisas que ela me mostra e ela acredita nas coisas que eu peço, e assim pedindo eu vou sabendo o que me falta e assim recebendo vou sabendo o que me faz mais feliz. Quando não recebo fico a analisar o que peço e percebo que o que peço não faz parte de mim. E assim vou acabando com a minha falsa vontade, com os meus caprichos, confiando no que a fé me mostra, mesmo não sendo aquilo que pensava que poderia ser. Se conselhos servem para alguma coisa aconselho a deixar parir a fé que insiste em gritar com você; aconselho a ouvi-la, aconselho a deixar que ela te guie ao que você é, ao que você sempre foi e sempre será. Não confunda você com aquilo que fazem de você, não cofunda nem mesmo o que você faz de você mesmo com você mesmo. Apenas saiba e acredite, ouça e acredite, acredite e ouse, ouse e seja, seja e liberte-se, liberte-se e triunfe.
Felipe Ribeiro
Há alguns anos pensava muito sobre qualquer coisa a ponto de chegar a conclusões racionais puramente fechadas sobre si mesmas mas de tamanha coerência que me assutava o fato de eu ter razão sobre algumas coisas. De fato me assustava porque não poderia aceitar aquilo como aquilo se mostrava, com a sua coerência fria, infecunda, cortante, prática, egocentrica e fechada. Alguma coisa gritava silenciosamente para minha consciência dizendo que não era só aquilo, não poderia ser só aquilo. Essa voz vinda de algum lugar foi me irritando ao ponto de eu apenas escutá-la e nada mais. Dei o braço a torcer para ver o que aconteceria. Pari minha fé nesse dia, dei nome a ela, comecei a cuidar dela depois de um longo tempo de gestação. Era um ser estranho, nunca havia o visto mas confesso que não teria como ser mais familiar para mim. Saiu de mim e me disse: "Até que enfim! Andemos juntos agora, sem eu pesar a você e sem você pesar a mim!" E foi nesse ponto que a coerência espantosa do mundo e todo o seu mistério aparente começaram a fazer algum sentido, mesmo que ainda não entendido, para mim. Foi então que reparei que a maioria das pessoas carregam sua fé como um peso morto. Algumas jogam fora a fé pelo caminho para se sentirem mais leves, mas logo em seguida procuram desesperadas por ela. Outros jogam tudo em cima da pobre fé, sobrecarregando a ela e a si mesmos. Alguns tem tamanho respeito por sua fé que a deixam sentada num altar e prestam culto a ela, engordando-a e deixando-a sedentária. Outros andam com ela, caminham com ela, são um com ela. A minha anda agora fora de mim, mas caminha perto de mim, as vezes me chama para eu ver alguma coisa, as vezes eu a chamo para me ajudar em outras. Deixo-a livre para que ela se fortaleça por conta, deixo-a por conta para que a confiança nela se estabeleça fortemente. Acredito nas coisas que ela me mostra e ela acredita nas coisas que eu peço, e assim pedindo eu vou sabendo o que me falta e assim recebendo vou sabendo o que me faz mais feliz. Quando não recebo fico a analisar o que peço e percebo que o que peço não faz parte de mim. E assim vou acabando com a minha falsa vontade, com os meus caprichos, confiando no que a fé me mostra, mesmo não sendo aquilo que pensava que poderia ser. Se conselhos servem para alguma coisa aconselho a deixar parir a fé que insiste em gritar com você; aconselho a ouvi-la, aconselho a deixar que ela te guie ao que você é, ao que você sempre foi e sempre será. Não confunda você com aquilo que fazem de você, não cofunda nem mesmo o que você faz de você mesmo com você mesmo. Apenas saiba e acredite, ouça e acredite, acredite e ouse, ouse e seja, seja e liberte-se, liberte-se e triunfe.
Felipe Ribeiro
domingo, 25 de julho de 2010
Samita.
Aos que dizem a mim o quanto mudei e conservam aquela cara irônica do vitorioso que quer dizer "não te falei que você mudaria" aqui vai minha resposta: Sim, porra, mudei. Agora não me venham perguntar no que mudei, em que perspectiva, porque essa ainda esta por se fazer. Aliás fico pensando se de fato não mudamos a todo o momento e por pura vaidade ou orgulho desejamos incontidamente sermos os mesmos de outros tempos. Por que é tão dificil aceitar a mudança, quando ela se faz, ou melhor, quando ela se impõe, nos empurra para um lugar escuro que, por medo, tentamos nos esquivar a todo instante nos agarrando às velhas certezas que não mais cabe na nossa realidade? Estou enfrentando coisas novas e seguramente com total insegurança. As vezes mais por desconfiança do que por querer me agarrar a algum preconceito anterior (desculpando desde já o pleonasmo). Desconfio de tudo que é bom e belo, as vezes por estar acostumado ao tédio da vida, as vezes por estar acostumado a indiferença que a própria vida me revela diante de meus caprichos. E por falar em caprichos estou tentando não impor os meus ao mundo, estou tentando ver o mundo como ele é e tentando aceitá-lo como ele se mostra, não a mim somente, mas, se é que é possivel, a todas as outras pessoas. É dificil se livrar do molde que nos molda desde há muito tempo o nosso próprio querer, a nossa própria vontade que nos faz agirmos na realidade conforme a nossa própria crença naquilo mesmo que aceitamos (ou conformamos)como sendo o real. Se a minha mudança aponta para uma melhoria ou piora eu não sei dizer, mas sei que mudei a minha crença quando comecei a agir diferente no mundo, pelo mundo, para o mundo e concometantemente a mim, em mim, por mim e para mim mesmo. Essa mudança teve como ponto de partida talvez algumas novas relações com algumas novas pessoas que entraram nessa coisa que chamo de minha vida. Novos ventos jogam pra longe velhas poeiras. A água limpa remove a crosta velha de sujicidade. É o refresco que sei que posso me refrescar, é a tal lanterna que me faz ter um pouco de coragem para entrar nesse local escuro que a mudança me empurra, esse local chamado novidade. Se é fruto de minha escolha mudar não posso dizer com certeza, as vezes é uma nova ditadura do coração me impondo sua vontade própria e sobre a qual a minha razão, sedenta de certezas, não tem poder algum; as vezes nem mesmo o coração tem consciência do seu novo senhor, as vezes ele também esta sendo empurrado por uma nova mudança tão sutil e poderosa que nem mesmo a intuição pode chegar a uma linha de raciocínio sobre o que esta acontecendo, apenas sente, pressente e conssente, inflamado pelo gosto doce, suave e salutar mas que ao mesmo tempo é dificil de se sentir, dificil de se decifrar, dificil de se crer tão belo, tão justo, tão nobre, tão honesto, tão dilacerante e tão vivo. É dificil acreditar que é tão bom quando de fato o é. É dificil de creditar ao coração sua existência quando ele de fato começa a bater de verdade, com algum objetivo que ainda não se sabe qual seja, que talvez implique em novas verdades, que talvez suplique novas piedades, que talvez, quem sabe, por que não, inflinja novas dores, novas vaidades, novos rancores, novos caprichos... Nova vida, quem sabe, enfim, Samita?
Felipe Ribeiro
Felipe Ribeiro
domingo, 4 de julho de 2010
O Barco.
"De qualquer maneira eu iria te esperar..."
"Esperar quanto tempo?"
"Até você voltar."
"O que te garante que eu iria voltar?"
"Nada... mas eu te esperaria ainda,
mesmo que voce não viesse, te esperaria
sempre te esperei, de alguma maneira"
"E valeria a pena tanta espera assim?"
"Por que não valeria?"
"Nada nos garante que valeria"
"E precisamos de garantias? O que garante as garantias?"
"Nada, elas só nos dão mais segurança...
você não vai entrar num barco no qual você vê um buraco enorme dentro..."
"É verdade... mas um barco bom pode virar...
e nunca estamos seguros integralmente quando arriscamos
o que vale a pena é o arriscar
é o surpreender
até mesmo o decepcionar...
pois nos torna mais donos de nós mesmos...
e mais seguros...
e se te espero... me arrisco a perder outras oportunidades com outras pessoas,
outras trajetórias...
mas... para mim vale a pena arriscar e te esperar...
porque eu te amo."
Felipe Ribeiro.
"Esperar quanto tempo?"
"Até você voltar."
"O que te garante que eu iria voltar?"
"Nada... mas eu te esperaria ainda,
mesmo que voce não viesse, te esperaria
sempre te esperei, de alguma maneira"
"E valeria a pena tanta espera assim?"
"Por que não valeria?"
"Nada nos garante que valeria"
"E precisamos de garantias? O que garante as garantias?"
"Nada, elas só nos dão mais segurança...
você não vai entrar num barco no qual você vê um buraco enorme dentro..."
"É verdade... mas um barco bom pode virar...
e nunca estamos seguros integralmente quando arriscamos
o que vale a pena é o arriscar
é o surpreender
até mesmo o decepcionar...
pois nos torna mais donos de nós mesmos...
e mais seguros...
e se te espero... me arrisco a perder outras oportunidades com outras pessoas,
outras trajetórias...
mas... para mim vale a pena arriscar e te esperar...
porque eu te amo."
Felipe Ribeiro.
domingo, 20 de junho de 2010
Sejamos.
Não que existam as pessoas más ou as pessoas boas. Existem os dispostos a fazerem o bem e os dispostos a fazerem mal o bem que lhes cabem. A vontade é tudo que resta nas pessoas que estão vivas; essa mesma vontade que ataca a própria Vida, a modifica, a desvirtua conforme a convicção, a fé que cada um carrega dentro de si mesmo... Conforme o amor a causa, por mínima que seja, conforme o amor a causa... Essa causa pode ser feita por nós, buscada por nós, sentida por nós, querida por nós... afinal ela é nossa, só nós possuímos a vontade de ter uma causa. Para tanto basta querer... O que, via de regra parece-nos a coisa mais difícil do mundo. Mas, do que é que se precisa de fato para se querer de verdade o próprio querer? A maioria das pessoas só querem aquilo que lhes assegure segurança, conforto, satisfação diante da vida... Então parece-me que elas precisam de coragem para querer de fato por conta própria algo que só elas poderiam querer. Mas, penso eu, é preciso coragem para de fato querer aquilo que lhe cabe e uma dose extra de sacrificio para deixar de querer aquilo que lhe cabe para realizar-se de fato naquilo que lhe cabe. Disposição e vontade então é tudo o que resta para as pessoas que estão vivas, e estar vivo é realizar o seu querer no tempo que lhe cabe, no seu próprio ritmo, mas que seja realizável em cada conduta. E como vamos saber o que queremos de fato, perguntará alguns. Meu caro, só você pode responder isso por você, mas ai vai uma dica: Escute a sua consciência, sempre. O resto, enfim, deixe por conta do grande fluxo da Vida que a tudo e a todos suga e cospe no balde da vitória ou da derrota, que a tudo e a todos exige cada vez mais coragem, que a tudo e a todos exige cada vez mais ousadia e mais amor e confiança nela mesma. Até nisso podemos escolher, vermos as coisas como uma derrota constante ou como uma vitória gradual. Cabe à sua consciência decidir o que fazer perante a vida e perante os golpes que ela lhe aplica, a todo o momento. Enfim... Sejamos.
Felipe Ribeiro
Felipe Ribeiro
domingo, 6 de junho de 2010
Conversas pra boi dormir, parte 7.
Cansado de fazer nada em casa a noite resolvi sair para fazer nada na rua. Chego ao ponto de ônibus, num frio de rachar os lábios, e encontro com uma vizinha que estava ali esperando o mesmo ônibus que eu. Acho que ela tinha a minha idade, nos conhecíamos tinha no mínimo uns 15 anos, mas nunca fomos de falar muito um com o outro. Ela até que era bonita pensando bem. Bom... talvez a minha seca fosse muita, mas o único problema dela era que ela falava demais. Nesse dia não foi diferente:
-Oi Felipe!
-Oi.
-E ai, fez a matrícula lá na academia?
-Heim?
-Não se lembra da última vez que a gente se viu e eu te disse para fazer musculação?
-Ah... Sim, agora me lembro.
-E ai, fez matrícula?
-Não.
-E a carteira de motorista?
-Bom... estamos ambos no ponto de ônibus, isso já te responde.
-Porque você não faz as mesmas coisas que os outros caras?
-Que coisas?
-Essas coisas normais.
-Normais?
-Aham... Todos os meninos que eu conheço são assim: tem carro, tem onde pegar, trabalham, ganham um dinheirinho bom... Você insiste nisso de ser magro e pobre! Mulher nenhuma gosta disso não viu! Vai lá, faz musculação, compra umas proteinas e engorda. Tira a carteira depois e compra um carro que esse negócio de ficar no ponto de ônibus passando frio não dá mais não...
-Então essa é a fórmula mágica?
-Ajuda...
-Sei.
-Falar nisso onde você vai?
-Vou ver minha namorada. - Menti.
-Ahhh sim...
-E você?
-Vou fazer uns negócios pra minha mãe...
-É... Mesmo porque se você tivesse namorado você não estaria passando frio aqui, não é verdade?
-Não mesmo!
-É...
-Então você tem uma namorada?
-Tenho... Coitada, ela é pobre, gosta de caras magros e sem carteira de motorista... Ela não é normal como você, graças a Deus.
-Você me acha chata?
-Sim, muito.
-É... mas eu falo isso para o seu bem Felipe... Sério, se voce fosse normal teria chance comigo...
-Deve ser por isso mesmo que insisto em não ser normal...
-Você é muito chato mesmo!
-É tanto faz...
-O ônibus está chegando... Vai nesse?
-Não, vou em outro. - Menti novamente.
-Bom... Até mais.
-Até.
Felipe Ribeiro
-Oi Felipe!
-Oi.
-E ai, fez a matrícula lá na academia?
-Heim?
-Não se lembra da última vez que a gente se viu e eu te disse para fazer musculação?
-Ah... Sim, agora me lembro.
-E ai, fez matrícula?
-Não.
-E a carteira de motorista?
-Bom... estamos ambos no ponto de ônibus, isso já te responde.
-Porque você não faz as mesmas coisas que os outros caras?
-Que coisas?
-Essas coisas normais.
-Normais?
-Aham... Todos os meninos que eu conheço são assim: tem carro, tem onde pegar, trabalham, ganham um dinheirinho bom... Você insiste nisso de ser magro e pobre! Mulher nenhuma gosta disso não viu! Vai lá, faz musculação, compra umas proteinas e engorda. Tira a carteira depois e compra um carro que esse negócio de ficar no ponto de ônibus passando frio não dá mais não...
-Então essa é a fórmula mágica?
-Ajuda...
-Sei.
-Falar nisso onde você vai?
-Vou ver minha namorada. - Menti.
-Ahhh sim...
-E você?
-Vou fazer uns negócios pra minha mãe...
-É... Mesmo porque se você tivesse namorado você não estaria passando frio aqui, não é verdade?
-Não mesmo!
-É...
-Então você tem uma namorada?
-Tenho... Coitada, ela é pobre, gosta de caras magros e sem carteira de motorista... Ela não é normal como você, graças a Deus.
-Você me acha chata?
-Sim, muito.
-É... mas eu falo isso para o seu bem Felipe... Sério, se voce fosse normal teria chance comigo...
-Deve ser por isso mesmo que insisto em não ser normal...
-Você é muito chato mesmo!
-É tanto faz...
-O ônibus está chegando... Vai nesse?
-Não, vou em outro. - Menti novamente.
-Bom... Até mais.
-Até.
Felipe Ribeiro
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